Importa reformar a Democracia
Portuguesa.
O Estado Português é cada vez maior na
dimensão mas menor na ideologia, na arquitetura, no sentido. Mas, é de tal
forma menor que se aproxima do vazio.
O Estado não mobiliza a sociedade e a
sociedade não se revê num Estado que perde identidade, anulando-se face à dita
“sociedade civil” e aos interesses económicos dos negócios, sindicatos e
beneficiários. O Estado anula-se promovendo a diversidade, a fragmentação/regionalização,
as questões fraturantes e o individualismo. Acresce uma crise de representação
da sociedade no Estado e de participação dos cidadãos na decisão politica.
O Estado Português tem dificuldade em
agregar de forma harmoniosa os interesses nacionais e os interesses dos
diversos grupos sociais que o constituem. O Estado não define de forma clara,
consistente e continuada, as opções politicas. Quando define uma estratégia ou
objetivos falha na mobilização e na gestão dos recursos ao seu dispor. Há uma
crise de governação.
Qualquer destes problemas não é de
natureza técnica, é de caráter político. No âmago da questão está o
esvaziamento da política do sentido de interesse nacional por oposição de um
afirmar dos interesses específicos (empresariais, sindicais, setores
profissionais, setores de atividade, beneficiários) que não são harmonizados
por uma ação politica ideologicamente orientada.
A pressão no sentido da globalização impõe
abertura da economia nacional e diminui a capacidade para empreender políticas
económicas e sociais a nível nacional, desestabilizando os governos e
conduzindo-os para a inoperância e o artificialismo.
Neste quadro os partidos políticos influem
de forma negativa sendo uma peça chave deste artificialismo, tendo um discurso
de angariador de votos e de distribuidor de benesses operando num esquema perto
do mafioso. Nem mesmo do ponto de vista ideológico os partidos contribuem com
valores, estratégias e planos que sejam alicerçadores
de um Estado projetado para o futuro e de uma sociedade dinâmica e vigorosa.
Em síntese, importa definir uma forma
específica de articulação do Estado com a sociedade na qual se reconheça que o
problema da governação eficiente não se limita a uma gestão profissional mas
estende-se a uma dimensão politica que tem escasseado, sobretudo na capacidade
de liderança.
A Reforma da Democracia passa por três
questões cruciais:
1 – Efetiva Separação de Poderes
Atualmente os partidos políticos assumem o
controlo do poder legislativo e executivo. Adicionalmente influem no poder
Judicial e no chamado quarto poder, o poder da comunicação social. É devido a
este centralismo que os mafiosos ambicionam influir nestas estruturas
tentaculares. Se houvesse clarividência politica, já teriam sido empreendidas
medidas reguladoras contra estes verdadeiros polvos.
À omnipresença dos partidos acresce que os
partidos são governados de forma estalinista em que o seu Secretário-Geral tem
todos os poderes de nomeação de listas de deputados ou autarcas e com isso
subjuga a um só credo toda a sua estrutura.
Tudo isto é evidente e notório. Só o carneirismo que caracteriza o comportamento humano, a clubite partidária e a manipulação dos media evita uma gargalhada geral
do país perante um quadro tão aberrante.
Os partidos políticos devem ver a sua
atuação limitada ao poder legislativo, isto é à Assembleia da Republica. Este
poder legislativo deve incluir a definição de uma estratégia e objetivos para o
Estado e para a sociedade.
O poder executivo, o governo, deve ser
exercido pelo Presidente da Republica que deverá ser eleito nos moldes atuais
sem ligação aos partidos. Os objetivos e meios da governação são definidos pela
Assembleia da Republica. Ao Governo cabe administrar segundo o plano de governo
gizado pela Assembleia da Republica. Não cabe à Assembleia da Republica avaliar
a performance do governo.
2 – Fim da Manipulação
Diz-se que em democracia ou há manipulação
ou há caos.
Importa provar que a democracia pode
acolher “fazedores de opinião pública” que não estejam diretamente ligados a
interesses partidários e setoriais. Ainda que estes interesses diretos sejam
lícitos não deixam de ser, por vezes, escamoteadores da realidade objetiva.
É impossível a um Estado reagir e
enfrentar dificuldades quando os problemas são camuflados para não prejudicarem
negócios, sindicatos ou beneficiários.
Pelo exposto é fundamental anular a ação
desestabilizadora dos media
que misturam informação com opinião, relativizam verdades e colocam no mesmo
plano opiniões suportadas em raciocínios válidos com afirmações assentes em
falácias.
A fiscalização e avaliação dos vários
poderes, designadamente do poder executivo deverão ser exercidos por um Senado.
O Senado deverá ser constituído por pessoas com carisma ao nível nacional,
capazes de formar e difundir opiniões que servem como referência para os demais
membros da sociedade. Os senadores devem ser nomeados pelo Conselho de Estado.
O Senado não pode depender de votos nem de qualquer pessoa ou instituição.
Competirá ao Senado aprovar e modificar o seu Regimento. A verdade, tal como o
homem a pode descortinar em cada momento, não pode ir a votos e o Senado também
não. O Senado tem que estar livre para dizer a verdade nua e crua. Todos os
órgãos e instituições do Estado devem estar obrigados a prestar informação ao
Senado. Ao Senado caberá, em circunstâncias excecionais e por maioria
qualificada, dissolver o parlamento (em consonância com o Presidente da
Republica) ou destituir o Presidente da Republica (em consonância com a
Assembleia da Republica).
3 – Contas Claras
O Estado Português não apresenta de forma
conveniente contas aos seus cidadãos, ignorando a necessidade da Aprovação da
Execução Orçamental e a necessidade de descrever a situação patrimonial do
Estado.
Adicionalmente a Constituição da Republica
Portuguesa, artigo 115º, veda a possibilidade dos eleitores referendarem sobre
as questões e os atos de conteúdo orçamental, tributário ou financeiro.
Isto demonstra claramente a preocupação do
Estado Português em fugir à obrigação de se submeter a um escrutínio
democrático sobre o seu desempenho económico-financeiro. Misturando questões
políticas com o bom governo económico-financeiro. Não importa somente
escrutinar se o Estado prossegue as políticas para as quais foi mandatado pelo
povo. Importa com objetividade numérica avaliar se as políticas foram
implementadas com racionalidade económico-financeira e acautelando o património
do Estado. Recorrendo a um exemplo futebolístico, não importa somente saber se
o Benfica é campeão nacional este ano, importa também que o clube não fique de
tal forma endividado que para o ano seguinte possa continuar a disputar o
campeonato nacional.
Constatada a realidade descrita tem que se
assegurar que no futuro o Estado Português seja obrigado a apresentar para
aprovação a um Senado a situação patrimonial e a execução orçamental realizada.
O Estado Português deverá apresentação
anualmente o Balanço Patrimonial do Estado Português em que seja demonstrada a
situação contábil, evidenciando qualitativa e quantitativamente, no final de
cada ano, a posição patrimonial e financeira do Estado Português.
No balanço patrimonial, as contas deverão
ser classificadas segundo os elementos do património que inscrevem e agrupadas
de modo a facilitar o conhecimento e a análise da situação financeira do Estado
Português.
As demonstrações de cada exercício anual
deverão ser publicadas com a indicação dos valores correspondentes das
demonstrações do exercício anterior, para fins de comparação.
O Balanço Patrimonial do Estado Português
deve evidenciar as seguintes categorias:
- Ativo - compreendendo os bens, os
direitos e as demais aplicações de recursos controlados pelo Estado, capazes de
gerar benefícios económicos futuros, originados de eventos ocorridos.
- Passivo - compreendendo as origens de
recursos representados pelas obrigações para com terceiros, resultantes de
eventos ocorridos que exigirão ativos para a sua liquidação.
- Património Líquido - compreendendo os
recursos próprios do Estado, e seu valor é a diferença positiva entre o valor
do Ativo e o valor do Passivo.
Com o Balanço Patrimonial do Estado
Português deverá ser apresentado um Relatório da execução do Orçamento do
Estado e uma demonstração do resultado da atividade financeira do ano em
análise.
O Senado deverá aprovar ou não este
Relatório e Contas do Exercício anual ocorrido, segundo os critérios mais
objetivos da verdade informativa e da transparência. A qualidade das contas
apresentadas, designadamente a redução anormal do Património Liquido também
deverá ter consequências automáticas ao nível político e criminal.
A reforma da democracia é urgente. Importa
que os potenciais agentes de mudança assumam as suas responsabilidades
históricas.
Enquanto o Estado Português não tiver um
relacionamento correto e transparente com os eleitores, estes não devem dar o
seu aval ao sistema optando por votarem em branco.
Lisboa, 7 de fevereiro 2011
José Alvarenga