Os Lusíadas - Canto VI

 

 

 

 


Os Lusíadas

 

 


Canto VI

 

1
NÃO sabia em que modo festejasse
O Rei Pagão os fortes navegantes,
Pera que as amizades alcançasse
Do Rei Cristão, das gentes tão possantes.
Pesa-lhe que tão longe o apousentasse
Das Europeias terras abundantes
A ventura, que não no fez vizinho
Donde Hércules ao mar abriu o caminho.

2
Com jogos, danças e outras alegrias,
A segundo a polícia Melindana,
Com usadas e ledas pescarias,
Com que a Lageia António alegra e engana,
Este famoso Rei, todos os dias
Festeja a companhia Lusitana,
Com banquetes, manjares desusados,
Com frutas, aves, carnes e pescados.

3
Mas vendo o Capitão que se detinha
Já mais do que devia, e o fresco vento
O convida que parta e tome asinha
Os pilotos da terra e mantimentos
Não se quer mais deter, que ainda tinha
Muito pera cortar do salso argento.
Já do Pagão benigno se despede,
Que a todos amizade longa pede.

4
Pede-lhe mais que aquele porto seja
Sempre com suas frotas visitado,
Que nenhum outro bem maior deseja
Que dar a tais barões seu reino e estado;
E que, enquanto seu corpo o esprito reja,
Estará de contino aparelhado
A pôr a vida e reino totalmente
Por tão bom Rei, por tão sublime gente.

5
Outras palavras tais lhe respondia
O Capitão, e logo, as velas dando,
Pera as terras da Aurora se partia,
Que tanto tempo há já que vai buscando.
No piloto que leva não havia
Falsidade, mas antes vai mostrando
A navegação certa; e assi caminha
Já mais seguro do que dantes vinha.

6
As ondas navegavam do Oriente,
Já nos mares da Índia, e enxergavam
Os tálamos do Sol, que nace ardente;
Já quási seus desejos se acabavam;
Mas o mau de Tioneu, que na alma sente
As venturas que então se aparelhavam
À gente Lusitana, delas dina,
Arde, morre, blasfema e desatina.

7
Via estar todo o Céu determinado
De fazer de Lisboa nova Roma;
Não no pode estorvar, que destinado
Está doutro Poder que tudo doma.
Do Olimpo dece enfim, desesperado;
Novo remédio em terra busca e toma:
Entra no húmido reino e vai-se à corte
Daquele a quem o mar caiu em sorte.

8
No mais interno fundo das profundas
Cavernas altas, onde o mar se esconde,
Lá donde as ondas saem furibundas
Quando às iras do vento o mar responde,
Neptuno mora e moram as jocundas
Nereidas e outros Deuses do mar, onde
As águas campo deixam às cidades
Que habitam estas húmidas Deidades.

9
Descobre o fundo nunca descoberto
As areias ali de prata fina;
Torres altas se vêem, no campo aberto,
Da transparente massa cristalina;
Quanto se chegam mais os olhos perto
Tanto menos a vista determina
Se é cristal o que vê, se diamante,
Que assi se mostra claro e radiante.

10
As portas d' ouro fino, e marchetadas
Do rico aljôfar que nas conchas nace,
De escultura fermosa estão lavradas,
Na qual do irado Baco a vista pace;
E vê primeiro, em cores variadas,
Do velho Caos a tão confusa face;
Vêm-se os quatro Elementos trasladados,
Em diversos ofícios ocupados.

11
Ali, sublime, o Fogo estava em cima,
Que em nenhũa matéria se sustinha;
Daqui as cousas vivas sempre anima,
Despois que Prometeu furtado o tinha.
Logo após ele, leve se sublima
O invisíbil Ar, que mais asinha
Tomou lugar e, nem por quente ou frio,
Algum deixa no mundo estar vazio.

12
Estava a Terra em montes, revestida
De verdes ervas e árvores floridas,
Dando pasto diverso e dando vida
Às alimárias nela produzidas.
A clara forma ali estava esculpida
Das Águas, entre a terra desparzidas,
De pescados criando vários modos,
Com seu humor mantendo os corpos todos.

13
Noutra parte, esculpida estava a guerra
Que tiveram os Deuses cos Gigantes;
Está Tifeu debaixo da alta serra
De Etna, que as flamas lança crepitantes.
Esculpido se vê, ferindo a Terra,
Neptuno, quando as gentes, ignorantes,
Dele o cavalo houveram, e a primeira
De Minerva pacífica ouliveira.

14
Pouca tardança faz Lieu irado
Na vista destas cousas, mas entrando
Nos paços de Neptuno, que, avisado
Da vinda sua, o estava já aguardando,
Às portas o recebe, acompanhado
Das Ninfas, que se estão maravilhando
De ver que, cometendo tal caminho,
Entre no reino d' água o Rei do vinho.

15
– «Ó Neptuno (lhe disse) não te espantes
De Baco nos teus reinos receberes,
Porque também cos grandes e possantes
Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
Manda chamar os Deuses do mar, antes
Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;
Verão da desventura grandes modos:
Ouçam todos o mal que toca a todos.»

16
Julgando já Neptuno que seria
Estranho caso aquele, logo manda
Tritão, que chame os Deuses da água fria,
Que o mar habitam dua e doutra banda.
Tritão, que de ser filho se gloria
Do Rei e de Salácia veneranda,
Era mancebo grande, negro e feio,
Trombeta de seu pai e seu correio.

17
Os cabelos da barba e os que decem
Da cabeça nos ombros, todos eram
Uns limos prenhes d' água, e bem parecem
Que nunca brando pêntem conheceram.
Nas pontas pendurados não falecem
Os negros mexilhões, que ali se geram.
Na cabeça, por gorra, tinha posta
Ũa mui grande casca de lagosta.

18
O corpo nu, e os membros genitais,
Por não ter ao nadar impedimento,
Mas porém de pequenos animais
Do mar todos cobertos, cento e cento:
Camarões e cangrejos e outros mais,
Que recebem de Febe crecimento;
Ostras e birbigões, do musco sujos,
Às costas co a casca os caramujos.

19
Na mão a grande concha retorcida
Que trazia, com força já tocava;
A voz grande, canora, foi ouvida
Por todo o mar, que longe retumbava.
Já toda a companhia, apercebida,
Dos Deuses pera os paços caminhava
Do Deus que fez os muros de Dardânia,
Destruídos despois da Grega insânia.

20
Vinha o padre Oceano, acompanhado
Dos filhos e das filhas que gerara;
Vem Nereu, que com Dóris foi casado,
Que todo o mar de Ninfas povoara.
O profeta Proteu, deixando o gado
Marítimo pacer pela água amara,
Ali veio também, mas já sabia
O que o padre Lieu no mar queria.

21
Vinha por outra parte a linda esposa
De Neptuno, de Celo e Vesta filha,
Grave e leda no gesto, e tão fermosa
Que se amansava o mar, de maravilha.
Vestida ũa camisa preciosa
Trazia, de delgada beatilha,
Que o corpo cristalino deixa ver-se,
Que tanto bem não é pera esconder-se.

22
Anfitrite, fermosa como as flores,
Neste caso não quis que falecesse;
O delfim traz consigo que aos amores
Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.
Cos olhos, que de tudo são senhores,
Qualquer parecerá que o Sol vencesse.
Ambas vêm pela mão, igual partido,
Pois ambas são esposas dum marido.

23
Aquela que, das fúrias de Atamante
Fugindo, veio a ter divino estado,
Consigo traz o filho, belo infante,
No número dos Deuses relatado;
Pela praia brincando vem, diante,
Com as lindas conchinhas, que o salgado
Mar sempre cria; e às vezes pela areia
No colo o toma a bela Panopeia.

24
E o Deus que foi num tempo corpo humano
E por virtude da erva poderosa,
Foi convertido em pexe, e deste dano
Lhe resultou Deidade gloriosa,
Inda vinha chorando o feio engano
Que Circes tinha usado co a fermosa
Scila, que ele ama, desta sendo amado,
Que a mais obriga amor mal empregado.

25
Já finalmente todos assentados
Na grande sala, nobre e divinal,
As Deusas em riquíssimos estrados,
Os Deuses em cadeiras de cristal,
Foram todos do Padre agasalhados,
Que co Tebano tinha assento igual;
De fumos enche a casa a rica massa
Que no mar nace e Arábia em cheiro passa.

26
Estando sossegado já o tumulto
Dos Deuses e de seus recebimentos,
Começa a descobrir do peito oculto
A causa o Tioneu de seus tormentos;
Um pouco carregando-se no vulto,
Dando mostra de grandes sentimentos,
Só por dar aos de Luso triste morte
Co ferro alheio, fala desta sorte:

27
– «Príncipe, que de juro senhoreias,
Dum Pólo ao outro Pólo, o mar irado,
Tu, que as gentes da Terra toda enfreias,
Que não passem o termo limitado;
E tu, padre Oceano, que rodeias
O Mundo universal e o tens cercado,
E com justo decreto assi permites
Que dentro vivam só de seus limites;

28
«E vós, Deuses do Mar, que não sofreis
Injúria algũa em vosso reino grande,
Que com castigo igual vos não vingueis
De quem quer que por ele corra e ande:
Que descuido foi este em que viveis?
Quem pode ser que tanto vos abrande
Os peitos, com razão endurecidos
Contra os humanos, fracos e atrevidos?

29
«Vistes que, com grandíssima ousadia,
Foram já cometer o Céu supremo;
Vistes aquela insana fantasia
De tentarem o mar com vela e remo;
Vistes, e ainda vemos cada dia,
Soberbas e insolências tais, que temo
Que do Mar e do Céu, em poucos anos,
Venham Deuses a ser, e nós, humanos.

30
«Vedes agora a fraca geração
Que dum vassalo meu o nome toma,
Com soberbo e altivo coração
A vós e a mi e o mundo todo doma.
Vedes, o vosso mar cortando vão,
Mais do que fez a gente alta de Roma;
Vedes, o vosso reino devassando,
Os vossos estatutos vão quebrando.

31
«Eu vi que contra os Mínias, que primeiro
No vosso reino este caminho abriram,
Bóreas, injuriado, e o companheiro
Áquilo e os outros todos resistiram.
Pois se do ajuntamento aventureiro
Os ventos esta injúria assi sentiram,
Vós, a quem mais compete esta vingança,
Que esperais? Porque a pondes em tardança?

32
«E não consinto, Deuses, que cuideis
Que por amor de vós do Céu deci,
Nem da mágoa da injúria que sofreis,
Mas da que se me faz também a mi;
Que aquelas grandes honras que sabeis
Que no mundo ganhei, quando venci
As terras Indianas do Oriente,
Todas vejo abatidas desta gente.

33
«Que o grão Senhor e Fados, que destinam,
Como lhe bem parece, o baxo mundo,
Famas, mores que nunca, determinam
De dar a estes barões no mar profundo.
Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam
O mal também a Deuses; que, a segundo
Se vê, ninguém já tem menos valia
Que quem com mais razão valer devia.

34
«E por isso do Olimpo já fugi,
Buscando algum remédio a meus pesares,
Por ver o preço que no Céu perdi,
Se por dita acharei nos vossos mares.»
Mais quis dizer, e não passou daqui,
Porque as lágrimas já, correndo a pares,
Lhe saltaram dos olhos, com que logo
Se acendem as Deidades d' água em fogo.

35
A ira com que súbito alterado
O coração dos Deuses foi num ponto,
Não sofreu mais conselho bem cuidado
Nem dilação nem outro algum desconto:
Ao grande Eolo mandam já recado,
Da parte de Neptuno, que sem conto
Solte as fúrias dos ventos repugnantes,
Que não haja no mar mais navegantes!

36
Bem quisera primeiro ali Proteu
Dizer, neste negócio, o que sentia;
E, segundo o que a todos pareceu,
Era algũa profunda profecia.
Porém tanto o tumulto se moveu,
Súbito, na divina companhia,
Que Tétis, indinada, lhe bradou:
– «Neptuno sabe bem o que mandou!»

37
Já lá o soberbo Hipótades soltava
Do cárcere fechado os furiosos
Ventos, que com palavras animava
Contra os varões audaces e animosos.
Súbito, o céu sereno se obumbrava,
Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
Começam novas forças a ir tomando,
Torres, montes e casas derribando.

38
Enquanto este conselho se fazia
No fundo aquoso, a leda, lassa frota
Com vento sossegado prosseguia,
Pelo tranquilo mar, a longa rota.
Era no tempo quando a luz do dia
Do Eóo Hemispério está remota;
Os do quarto da prima se deitavam,
Pera o segundo os outros despertavam.

39
Vencidos vêm do sono e mal despertos;
Bocijando, a miúdo se encostavam
Pelas antenas, todos mal cobertos
Contra os agudos ares que assopravam;
Os olhos contra seu querer abertos;
Mas estregando, os membros estiravam.
Remédios contra o sono buscar querem,
Histórias contam, casos mil referem.

40
– «Com que milhor podemos (um dizia)
Este tempo passar, que é tão pesado,
Senão com algum conto de alegria,
Com que nos deixe o sono carregado?»
Responde Leonardo, que trazia
Pensamentos de firme namorado:
– «Que contos poderemos ter milhores,
Pera passar o tempo, que de amores?»

41
– «Não é (disse Veloso) cousa justa
Tratar branduras em tanta aspereza,
Que o trabalho do mar, que tanto custa,
Não sofre amores nem delicadeza;
Antes de guerra, férvida e robusta
A nossa história seja, pois dureza
Nossa vida há-de ser, segundo entendo,
Que o trabalho por vir mo está dizendo.»

42
Consentem nisto todos, e encomendam
A Veloso que conte isto que aprova.
– «Contarei (disse) sem que me reprendam
De contar cousa fabulosa ou nova;
E por que os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova,
Dos nacidos direi na nossa terra,
E estes sejam os Doze de Inglaterra.

43
«No tempo que do Reino a rédea leve,
João, filho de Pedro, moderava,
Despois que sossegado e livre o teve
Do vizinho poder, que o molestava,
Lá na grande Inglaterra, que da neve
Boreal sempre abunda, semeava
A fera Erínis dura e má cizânia,
Que lustre fosse a nossa Lusitânia.

44
«Entre as damas gentis da corte Inglesa
E nobres cortesãos, acaso um dia
Se levantou discórdia, em ira acesa
(Ou foi opinião, ou foi porfia).
Os cortesãos, a quem tão pouco pesa
Soltar palavras graves de ousadia,
Dizem que provarão que honras e famas
Em tais damas não há pera ser damas;

45
«E que se houver alguém, com lança e espada,
Que queira sustentar a parte sua,
Que eles, em campo raso ou estacada,
Lhe darão feia infâmia ou morte crua.
A feminil fraqueza, pouco usada,
Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua
De forças naturais convenientes,
Socorro pede a amigos e parentes.

46
«Mas, como fossem grandes e possantes
No reino os inimigos, não se atrevem
Nem parentes, nem férvidos amantes,
A sustentar as damas, como devem.
Com lágrimas fermosas, e bastantes
A fazer que em socorro os Deuses levem
De todo o Céu, por rostos de alabastro,
Se vão todas ao Duque de Alencastro.

47
«Era este Ingrês potente e militara
Cos Portugueses já contra Castela,
Onde as forças magnânimas provara
Dos companheiros, e benigna estrela.
Não menos nesta terra exprimentara
Namorados afeitos, quando nela
A filha viu, que tanto o peito doma
Do forte Rei, que por mulher a toma.

48
«Este, que socorrer-lhe não queria
Por não causar discórdias intestinas,
Lhe diz: – «Quando o direito pretendia
Do Reino lá das terras Iberinas,
Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Tanto primor e partes tão divinas,
Que eles sós poderiam, se não erro
Sustentar vossa parte a fogo e ferro;

49
«E se, agravadas damas, sois servidas,
Por vós lhe mandarei embaixadores,
Que, por cartas discretas e polidas,
De vosso agravo os façam sabedores;
Também, por vossa parte, encarecidas
Com palavras d' afagos e d' amores
Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio
Que ali tereis socorro e forte esteio.»

50
«Destarte as aconselha o Duque experto
E logo lhe nomeia doze fortes;
E por que cada dama um tenha certo,
Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
Que elas só doze são; e descoberto
Qual a qual tem caído das consortes,
Cad' ũa escreve ao seu, por vários modos,
E todas a seu Rei, e o Duque a todos.

51
«Já chega a Portugal o mensageiro,
Toda a corte alvoroça a novidade;
Quisera o Rei sublime ser primeiro,
Mas não lho sofre a régia Majestade.
Qualquer dos cortesãos aventureiro
Deseja ser, com férvida vontade,
E só fica por bem-aventurado
Quem já vem pelo Duque nomeado.

52
«Lá na leal cidade donde teve
Origem (como é fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem-se os doze, em tempo breve,
D' armas e roupas de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras e primores,
Cavalos, e concertos de mil cores.

53
«Já do seu Rei tomado têm licença,
Pera partir do Douro celebrado,
Aqueles que escolhidos por sentença
Foram do Duque Inglês exprimentado.
Não há na companhia diferença
De cavaleiro, destro ou esforçado;
Mas um só, que Magriço se dizia,
Destarte fala à forte companhia:

54
– «Fortíssimos consócios, eu desejo
Há muito já de andar terras estranhas,
Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,
Várias gentes e leis e várias manhas.
Agora que aparelho certo vejo,
(Pois que do mundo as cousas são tamanhas)
Quero, se me deixais, ir só por terra,
Porque eu serei convosco em Inglaterra.

55
«E quando caso for que eu, impedido
Por Quem das cousas é última linha,
Não for convosco ao prazo instituído,
Pouca falta vos faz a falta minha:
Todos por mi fareis o que é devido.
Mas, se a verdade o esprito me adivinha,
Rios, montes, Fortuna ou sua enveja
Não farão que eu convosco lá não seja.»

56
«Assi diz e, abraçados os amigos
E tomada licença, enfim se parte.
Passa Lião, Castela, vendo antigos
Lugares que ganhara o pátrio Marte;
Navarra, cos altíssimos perigos
Do Perineu, que Espanha e Gália parte.
Vistas, enfim, de França as cousas grandes,
No grande empório foi parar de Frandes.

57
«Ali chegado, ou fosse caso ou manha,
Sem passar se deteve muitos dias.
Mas dos onze a ilustríssima companha
Cortam do Mar do Norte as ondas frias;
Chegados de Inglaterra à costa estranha,
Pera Londres já fazem todos vias;
Do Duque são com festas agasalhados
E das damas servidos e amimados.

58
«Chega-se o prazo e dia assinalado
De entrar em campo já cos doze Ingleses,
Que pelo Rei já tinham segurado;
Armam-se d' elmos, grevas e de arneses.
Já as damas têm por si, fulgente e armado,
O Mavorte feroz dos Portugueses;
Vestem-se elas de cores e de sedas,
De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.

59
«Mas aquela a quem fora em sorte dado
Magriço, que não vinha, com tristeza
Se veste, por não ter quem nomeado
Seja seu cavaleiro nesta empresa;
Bem que os onze apregoam que acabado
Será o negócio assi na corte Inglesa,
Que as damas vencedoras se conheçam,
Posto que dous e três dos seus faleçam.

60
«Já num sublime e púbrico teatro
Se assenta o Rei Inglês com toda a corte;
Estavam três e três e quatro e quatro,
Bem como a cada qual coubera em sorte;
Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
De força, esforço e d' ânimo mais forte,
Outros doze sair, como os Ingleses,
No campo, contra os onze Portugueses.

61
«Mastigam os cavalos, escumando,
Os áureos freios, com feroz sembrante;
Estava o Sol nas armas rutilando,
Como em cristal ou rígido diamante;
Mas enxerga-se, num e noutro bando,
Partido desigual e dissonante
Dos onze contra os doze; quando a gente
Começa a alvoroçar-se geralmente.

62
«Viram todos o rosto aonde havia
A causa principal do reboliço:
Eis entra um cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao bélico serviço;
Ao Rei e às damas fala e logo se ia
Pera os onze, que este era o grão Magriço;
Abraça os companheiros, como amigos
A quem não falta, certo nos perigos.

63
«A dama, como ouviu que este era aquele
Que vinha a defender seu nome e fama,
Se alegra e veste ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que virtude ama.
Já dão sinal, e o som da tuba impele
Os belicosos ânimos, que inflama;
Picam d' esporas, largam rédeas logo,
Abaxam lanças, fere a terra fogo;

64
«Dos cavalos o estrépito parece
Que faz que o chão debaixo todo treme;
O coração no peito que estremece
De quem os olha, se alvoroça e teme.
Qual do cavalo voa, que não dece;
Qual, co cavalo em terra dando, geme;
Qual vermelhas as armas faz de brancas;
Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.

65
«Algum dali tomou perpétuo sono
E fez da vida ao fim breve intervalo;
Correndo, algum cavalo vai sem dono,
E noutra parte o dono sem cavalo.
Cai a soberba Inglesa de seu trono,
Que dous ou três já fora vão do valo.
Os que de espada vêm fazer batalha,
Mais acham já que arnês, escudo e malha.

66
«Gastar palavras em contar extremos
De golpes feros, cruas estocadas,
É desses gastadores, que sabemos,
Maus do tempo com fábulas sonhadas.
Basta, por fim do caso, que entendemos
Que com finezas altas e afamadas,
Cos nossos fica a palma da vitória
E as damas vencedoras e com glória.

67
«Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos seus paços, com festas e alegria;
Cozinheiros ocupa e caçadores,
Das damas e fermosa companhia,
Que querem dar aos seus libertadores
Banquetes mil, cada hora e cada dia,
Enquanto se detêm em Inglaterra,
Até tornar à doce e cara terra.

68
«Mas dizem que, contudo, o grão Magriço,
Desejoso de ver as cousas grandes,
Lá se deixou ficar, onde um serviço
Notável à Condessa fez de Frandes;
E, como quem não era já noviço
Em todo trance onde tu, Marte, mandes,
Um Francês mata em campo, que o destino
Lá teve de Torcato e de Corvino.

69
«Outro também dos doze em Alemanha
Se lança e teve um fero desafio
Cum Germano enganoso, que, com manha
Não devida, o quis pôr no extremo fio.»
Contando assi Veloso, já a companha
Lhe pede que não faça tal desvio
Do caso de Magriço e vencimento,
Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.

70
Mas neste passo, assi prontos estando,
Eis o mestre, que olhando os ares anda,
O apito toca: acordam, despertando,
Os marinheiros dũa e doutra banda,
E, porque o vento vinha refrescando,
Os traquetes das gáveas tomar manda.
– «Alerta (disse) estai, que o vento crece
Daquela nuvem negra que aparece!»

71
Não eram os traquetes bem tomados,
Quando dá a grande e súbita procela.
– «Amaina (disse o mestre a grandes brados),
Amaina (disse), amaina a grande vela!»
Não esperam os ventos indinados
Que amainassem, mas, juntos dando nela,
Em pedaços a fazem cum ruído
Que o Mundo pareceu ser destruído!

72
O céu fere com gritos nisto a gente,
Cum súbito temor e desacordo;
Que, no romper da vela, a nau pendente
Toma grão suma d' água pelo bordo.
– «Alija (disse o mestre rijamente,
Alija tudo ao mar, não falte acordo!
Vão outros dar à bomba, não cessando;
À bomba, que nos imos alagando!»

73
Correm logo os soldados animosos
A dar à bomba; e, tanto que chegaram,
Os balanços que os mares temerosos
Deram à nau, num bordo os derribaram.
Três marinheiros, duros e forçosos,
A menear o leme não bastaram;
Talhas lhe punham, dũa e doutra parte,
Sem aproveitar dos homens força e arte.

74
Os ventos eram tais que não puderam
Mostrar mais força d' ímpeto cruel,
Se pera derribar então vieram
A fortíssima Torre de Babel.
Nos altíssimos mares, que creceram,
A pequena grandura dum batel
Mostra a possante nau, que move espanto,
Vendo que se sustém nas ondas tanto.

75
A nau grande, em que vai Paulo da Gama,
Quebrado leva o masto pelo meio,
Quási toda alagada; a gente chama
Aquele que a salvar o mundo veio.
Não menos gritos vãos ao ar derrama
Toda a nau de Coelho, com receio,
Conquanto teve o mestre tanto tento
Que primeiro amainou que desse o vento.

76
Agora sobre as nuvens os subiam
As ondas de Neptuno furibundo;
Agora a ver parece que deciam
As íntimas entranhas do Profundo.
Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, queriam
Arruinar a máquina do Mundo;
A noite negra e feia se alumia
Cos raios em que o Pólo todo ardia!

77
As Alciónias aves triste canto
Junto da costa brava levantaram,
Lembrando-se de seu passado pranto,
Que as furiosas águas lhe causaram.
Os delfins namorados, entretanto,
Lá nas covas marítimas entraram,
Fugindo à tempestade e ventos duros,
Que nem no fundo os deixa estar seguros.

78
Nunca tão vivos raios fabricou
Contra a fera soberba dos Gigantes
O grão ferreiro sórdido que obrou
Do enteado as armas radiantes;
Nem tanto o grão Tonante arremessou
Relâmpados ao mundo, fulminantes,
No grão dilúvio donde sós viveram
Os dous que em gente as pedras converteram.

79
Quantos montes, então, que derribaram
As ondas que batiam denodadas!
Quantas árvores velhas arrancaram
Do vento bravo as fúrias indinadas!
As forçosas raízes não cuidaram
Que nunca pera o céu fossem viradas,
Nem as fundas areias que pudessem
Tanto os mares que em cima as revolvessem.

80
Vendo Vasco da Gama que tão perto
Do fim de seu desejo se perdia,
Vendo ora o mar até o Inferno aberto,
Ora com nova fúria ao Céu subia,
Confuso de temor, da vida incerto,
Onde nenhum remédio lhe valia,
Chama aquele remédio santo e forte
Que o impossíbil pode, desta sorte:

81
– «Divina Guarda, angélica, celeste,
Que os céus, o mar e terra senhoreias:
Tu, que a todo Israel refúgio deste
Por metade das águas Eritreias;
Tu, que livraste Paulo e defendeste
Das Sirtes arenosas e ondas feias,
E guardaste, cos filhos, o segundo
Povoador do alagado e vácuo mundo:

82
«Se tenho novos medos perigosos
Doutra Cila e Caríbdis já passados,
Outras Sirtes e baxos arenosos,
Outros Acroceráunios infamados;
No fim de tantos casos trabalhosos,
Porque somos de Ti desamparados,
Se este nosso trabalho não te ofende,
Mas antes teu serviço só pretende?

83
«Oh ditosos aqueles que puderam
Entre as agudas lanças Africanas
Morrer, enquanto fortes sustiveram
A santa Fé nas terras Mauritanas;
De quem feitos ilustres se souberam,
De quem ficam memórias soberanas,
De quem se ganha a vida com perdê-la,
Doce fazendo a morte as honras dela!»

84
Assi dizendo, os ventos, que lutam
Como touros indómitos, bramando,
Mais e mais a tormenta acrecentavam,
Pela miúda enxárcia assoviando.
Relâmpados medonhos não cessavam,
Feros trovões, que vêm representando
Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,
Consigo os Elementos terem guerra.

85
Mas já a amorosa Estrela cintilava
Diante do Sol claro, no horizonte,
Mensageira do dia, e visitava
A terra e o largo mar, com leda fronte.
A Deusa que nos Céus a governava,
De quem foge o ensífero Orionte,
Tanto que o mar e a cara armada vira,
Tocada junto foi de medo e de ira.

86
– «Estas obras de Baco são, por certo
(Disse), mas não será que avante leve
Tão danada tenção, que descoberto
Me será sempre o mal a que se atreve.»
Isto dizendo, dece ao mar aberto,
No caminho gastando espaço breve,
Enquanto manda as Ninfas amorosas
Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.

87
Grinaldas manda pôr de várias cores
Sobre cabelos louros a porfia.
Quem não dirá que nacem roxas flores
Sobre ouro natural, que Amor enfia?
Abrandar determina, por amores,
Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Que mais fermosas vinham que as estrelas.

88
Assi foi; porque, tanto que chegaram
À vista delas, logo lhe falecem
As forças com que dantes pelejaram,
E já como rendidos lhe obedecem;
Os pés e mãos parece que lhe ataram
Os cabelos que os raios escurecem.
A Bóreas, que do peito mais queria,
Assi disse a belíssima Oritia:

89
– «Não creias, fero Bóreas, que te creio
Que me tiveste nunca amor constante,
Que brandura é de amor mais certo arreio
E não convém furor a firme amante.
Se já não pões a tanta insânia freio,
Não esperes de mi, daqui em diante,
Que possa mais amar-te, mas temer-te;
Que amor, contigo, em medo se converte.»

90
Assi mesmo a fermosa Galateia
Dizia ao fero Noto, que bem sabe
Que dias há que em vê-la se recreia,
E bem crê que com ele tudo acabe.
Não sabe o bravo tanto bem se o creia,
Que o coração no peito lhe não cabe;
De contente de ver que a dama o manda,
Pouco cuida que faz, se logo abranda.

91
Desta maneira as outras amansavam
Subitamente os outros amadores;
E logo à linda Vénus se entregavam,
Amansadas as iras e os furores.
Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
Sempiterno favor em seus amores,
Nas belas mãos tomando-lhe homenagem
De lhe serem leais esta viagem.

92
Já a manhã clara dava nos outeiros
Por onde o Ganges murmurando soa,
Quando da celsa gávea os marinheiros
Enxergaram terra alta, pela proa.
Já fora de tormenta e dos primeiros
Mares, o temor vão do peito voa.
Disse alegre o piloto Melindano:
– «Terra é de Calecu, se não me engano.

93
«Esta é, por certo, a terra que buscais
Da verdadeira Índia, que aparece;
E se do mundo mais não desejais,
Vosso trabalho longo aqui fenece.»
Sofrer aqui não pôde o Gama mais,
De ledo em ver que a terra se conhece;
Os giolhos no chão, as mãos ao Céu,
A mercê grande a Deus agardeceu.

94
As graças a Deus dava, e razão tinha,
Que não somente a terra lhe mostrava
Que, com tanto temor, buscando vinha,
Por quem tanto trabalho exprimentava,
Mas via-se livrado, tão asinha,
Da morte, que no mar lhe aparelhava
O vento duro, férvido e medonho,
Como quem despertou de horrendo sonho.

95
Por meio destes hórridos perigos,
Destes trabalhos graves e temores,
Alcançam os que são de fama amigos
As honras imortais e graus maiores;
Não encostados sempre nos antigos
Troncos nobres de seus antecessores;
Não nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moscóvia zibelinos;

96
Não cos manjares novos e esquisitos,
Não cos passeios moles e ouciosos,
Não cos vários deleites e infinitos,
Que afeminam os peitos generosos;
Não cos nunca vencidos apetitos,
Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,
Que não sofre a nenhum que o passo mude
Pera algũa obra heróica de virtude;

97
Mas com buscar, co seu forçoso braço,
As honras que ele chame próprias suas;
Vigiando e vestindo o forjado aço,
Sofrendo tempestades e ondas cruas,
Vencendo os torpes frios no regaço
Do Sul, e regiões de abrigo nuas,
Engolindo o corrupto mantimento
Temperado com um árduo sofrimento;

98
E com forçar o rosto, que se enfia,
A parecer seguro, ledo, inteiro,
Pera o pelouro ardente que assovia
E leva a perna ou braço ao companheiro.
Destarte o peito um calo honroso cria,
Desprezador das honras e dinheiro,
Das honras e dinheiro que a ventura
Forjou, e não virtude justa e dura.

99
Destarte se esclarece o entendimento,
Que experiências fazem repousado,
E fica vendo, como de alto assento,
O baxo trato humano embaraçado.
Este, onde tiver força o regimento
Direito e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando.

 

 


NOTAS

1.4-8
"... das gentes tão possantes": tão poderosas; "Pesa-lhe [a ventura] que tão longe o apousentasse": pesa-lhe que o destino o aposentasse tão longe das "Europeias terras abundantes", que tão longe o acolhesse; "... que não no fez vizinho / Donde Hércules ao mar abriu o caminho": Gibraltar.
Ort.: apousentasse (por aposentasse).

2.2-4
"A segundo a polícia Melindana": ao modo da urbanidade melindana; "Com que a Lageia António alegra e engana": Lageia, de Lageus. Ptolemeu Lagus, dos Lágidas do Egipto. "Marco António estava uma vez à pesca e não pescava nada, o que o contrariava, porque Cleópatra fazia parte da assistência. Pediu, portanto, a outros pescadores que mergulhassem e sem que os vissem prendessem ao seu anzol peixes da pesca anterior. Pôde assim por duas ou três vezes retirar a sua linha lastrada com dois ou três peixes. Mas a manobra não escapou à Egípcia. Fingindo admirar a boa sorte de António, Cleópatra contou a história a seus amigos e pediu-lhes que no dia seguinte estivessem no mesmo sítio. Muitos deles vieram e subiram para barcos de pesca. Quando António desceu a linha a rainha disse a um dos seus servos que fosse adiante para mergulhar e atravessar o anzol com um peixe salgado do porto. Quando António, certo de ter apanhado qualquer coisa, puxou a linha, a vista da sua presa suscitou naturalmente um riso geral. Disse-lhe então Cleópatra: ‘Imperador, deixa-nos as linhas a nós, reis de Faros e de Canopo; a tua pesca são as cidades, os reinos e os continentes.’" (Plutarco, Ant., XXIX.)

3.3-8
"... e tome asinha": sem tardar (asinha, voc. arcaico); "... do salso argento": verso muito semelhante a I.18.5: "Já do Pagão benigno se despede": o rei de Melinde não era pagão, mas não era cristão; "Que a todos amizade longa pede": o que inicial e toda a estância seguinte têm por sujeito Pagão.

4.3
"Que nenhum outro bem ...": que causal.

4.4
Neste lugar e em VI.33.4 o Poeta emprega a forma barões, mas em VI.37.4 emprega varões.

5.2-3
"... e logo, as velas dando": as velas desfraldando; "Pera as terras da Aurora se partia": para o Oriente. "... partiose de Melide [falta o ~ no i de Melide] pera Calicut hũa terça feyra XXIIIJ. Dabril" (Castanheda, I.XIII).

6.2-5
"... e enxergavam / Os tálamos do Sol, que nace ardente": tálamo é propriamente a câmara nupcial. Aqui pode interpretar-se por berço do sol; "Mas o mau do Tioneu, ...": v. II.12.7.
Ort.: nace (por nasce); dina (por digna).

7.4-8
"Está doutro Poder que tudo doma": outro poder superior aos dos deuses pagãos; "Entra no húmido reino e vai-se à corte": entra no mar; "Daquele a quem o mar caiu em sorte": Neptuno.

8.5-8
"... e moram as jocundas / Nereidas ...": as filhas de Nereu e de Dóris (v. II.20.8); "Que habitam estas húmidas Deidades": divindades marinhas.

9.1
Baco vai entrar no paço de Neptuno, e assistimos à descrição da região elemental, esculpida nas portas do palácio de Neptuno. E aproxima-se da descrição das origens do Mundo e da separação dos elementos, segundo Ov., M, I.5-31. Sobre o Caos, diz Ovídio:

Ante mare et terras et, quod tegit omnia, caelum
Unus erat toto naturae vultus in orbe,
Quem dixere chaos ...

10.7
"Vêm-se os quatro Elementos trasladados": nas est. 11 e 12 vem a descrição do Fogo, do Ar, da Terra e das Águas.

11.1-8
"Ali, sublime, o Fogo estava em cima": no sentido latino (sublimis), que está suspenso no ar; "Daqui as cousas vivas sempre anima / Despois que Prometeu furtado o tinha": tendo sido, por causa dos homens, enganado por Prometeu, Zeus recusou-se a enviar o fogo a estes. Prometeu teve artes de o roubar; "Logo após ele, leve se sublima / O invisíbil Ar, que mais asinha": levemente se sustém. Asinha, depressa (arcaico); "Algum deixa ...": algum (lugar).
Ort.: despois (por depois); invisíbil, latinismo (por invisível).

12.7
"De pescados criando vários modos": várias espécies.

13.1-2
V. II.112.1-8 e V.51.1-2.

13.3-8
"Está Tifeu debaixo da alta serra / Do Etna, ...": outro dos Gigantes que, na sua luta com Zeus, ficou sepultado sob o Etna (v. V.51.2); "Neptuno, quando as gentes, ignorantes, / Dele o cavalo houveram, e a primeira / De Minerva pacífica ouliveira": sobre Neptuno, v. III.51.3-4. Minerva (ou Atena) inventou o azeite e introduziu a oliveira na Ática. O Poeta não ignora que Neptuno (Posídon) e Minerva foram disputantes da soberania da Ática.

14.1
"Pouca tardança faz Lieu irado": v. I.49.6-8.
Ort.: prantado (por plantado).

15.3-7
"... também cos grandes e possantes": poderosos; "Verão da desventura grandes modos": maneiras.

16.5-8
"Trítão, que de ser filho se gloria / Do Rei e de Salácia veneranda": Tritão passa em geral por ser filho de Neptuno (Posídon) e de Anfitrite. O Poeta dá-lhe como mãe Salácia, também esposa de Neptuno. As funções de Tritão estão resumidas no v. 8: "Trombeta de seu pai e seu correio". V. em Ov., M, I.333-338, Tritão recebendo as ordens de Neptuno. O Poeta, nas est. 17 a 19, descreve a figura de Tritão.

17.3-7
"... e bem parecem / Que ...": ED diz que há aqui contaminação da construção impessoal "parece que conhecêrão" com a construção pessoal "parecem ter conhecido"; "Os negros mexilhões, ...": o Poeta escreveu Misilhões.
Ort.: decem (por descem); pêntem (por pente).

18.1-7
"O corpo nu, e ...": incluindo; "Que recebem de Febe crecimento": irmã de Febo, Diana ou a Lua: "vento semper rubet aurea Phoebe" (V, G, I.431); "Ostras e birbigões, ...": o Poeta repetiu em 18.7 camarões do v. 5. Vários editores propõem briguigões ou birbigões. Ainda hoje é crença popular que os mariscos crescem ou minguam com as luas. Segundo JMR, em MACL, vol. III, p. 174, esta estância deve ler-se e pontuar-se da maneira seguinte:

O corpo nu, os membros genitais,
Por não ter ao nadar impedimento,
Mas porém de pequenos animais
Do mar todos cobertos, cento e cento:
Camarões e cangrejos e outros mais,
Que recebem de Phebe crescimento.
Ostras e camarões, do musco sujos,
Às costas, e coa casca os caramujos.

Ort.: crecimento (por crescimento); cangrejos (por caranguejos).

19.7-8
"Do Deus que fez os muros de Dardânia, / Destruídos despois da Grega insânia": Posídon participou durante um ano na construção do muro de Tróia. Laomedonte recusou-lhe o salário convencionado. Para se vingar, Posídon suscitou um monstro que saiu do mar e assolou as populações troianas. Dardânia, de Dárdano, seu rei e fundador; grega insânia, loucura dos Gregos.
Ort.: despois (por depois).

20.3-8
"Vem Nereu, que com Dóris foi casado": v. II.19.1-2; "O profeta Proteu, deixando o gado": v. I.19.8; "Ali veio também, mas já sabia": Proteu possuía o dom profético; "... o padre Lieu": o padre Baco (v. VI.14.1).

21.1-2
"Vinha por outra parte a linda esposa / De Neptuno, de Celo e Vesta filha": grande confusão mitológica. Tétis (Tethys) é filha de Úrano (personificação do Céu) e de Geia (ou Gaia). De Gaia, Úrano teve seis Titãs e seis Titânides, uma das quais é Tétis, que o Poeta fez desposar com Neptuno. Tétis é esposa do Oceano, seu irmão, o mais velho dos Titãs, também filho de Úrano e de Gaia. Os dois geraram as Oceânides. Vesta não é, no entanto, lapso do Poeta, que poderia ter lido em Ov., Fasti, VI.460: "et Tellus Vestaque numen idem", e em VI.267: "Vesta eadem est et terra". V. IX.85.2-3.

22.1-6
"Anfitrite, fermosa como as flores": Anfitrite é uma das Nereidas, portanto uma das filhas de Nereu e de Dóris. É esposa de Neptuno. Anfitrite recusou-se, por pudor, a casar com o rei marinho e escondeu-se nas profundidades do Oceano, para lá das Colunas de Hércules. Encontrada pelos delfins, foi trazida por eles, em grande cortejo, a Neptuno; "Cos olhos, que de tudo são senhores, / Qualquer parecerá que o Sol vencesse": refere-se à beleza de Tétis e de Anfitrite.
Ort.: fermosa (por formosa).

23.1-8
"Aquela que, das fúrias de Atamante": Atamas, ou Atamante (como diz o Poeta), casou com Ino, filha de Cadmos, que teve dois filhos (Learco e Melicerta). Atamas enlouqueceu por obra de Tisifone e matou Learco. Há várias tradições a respeito do suicídio de Ino e de seu filho Melicerta. Vénus, dirigindo-se a Neptuno, intercede pela sua neta e torna imortais a mãe (Ino ou Leucotoe) e o filho (Melicerta ou Palémon), que no poema vem ao colo da bela Panopeia (v. OV., M, IV.416-542); "No colo a toma a bela Panopeia": é uma das Nereidas.

24.1-8
"E o Deus que foi num tempo corpo humano / E por virtude da erva poderosa, / Foi convertido em pexe, ...": segundo uma tradição, Glauco foi filho de Posídon (Neptuno) e de uma das Náiades. Era de raça mortal quando nasceu; mas, tendo provado por acaso uma erva que conferia a imortalidade, converteu-se num deus do mar. A parte inferior do seu corpo tornou-se uma poderosa cauda de peixe; "Inda vinha chorando o feio engano / Que Circes tinha usado co a fermosa / Scila, que ele ama, desta sendo amado": desta refere-se a Circes, que de facto amava Glauco, e não a Scila (v. Ov., M, XIII.900-968, e ainda XIV.1-74).

25.6-8
"Que co Tebano ...": v. I.73.1-2; "De fumos enche a casa a rica massa / Que no mar nace e Arábia em cheiro passa": o âmbar, substância cinzenta, aromática, que tem origem na vesícula biliar de alguns cetáceos. A Arábia em cheiro passa: ultrapassa o incenso e mirra da Arábia.

26.4-8
"A causa o Tioneu ...": v. II.12.7; "Co ferro alheio, por intervenção de outrem.

27.1-5
"Príncipe, ...": Baco dirige-se ao rei Neptuno e, depois, ao padre Oceano". Na estância seguinte (28) aos "Deuses do Mar", enfim, a todos os assistentes ao conselho.

28.3-8
"Que com castigo igual vos não vingueis": que não deixais de vos vingar com castigo condigno; "... fracos e atrevidos?": fracos, mas atrevidos.

29.1-4
"Vistes que, com grandíssima ousadia": v. IV.104.1-5; "... aquela insana fantasia / De tentarem o mar com vela e remo": v. IV.83.7.

30.2-8
"Que dum vassalo meu o nome toma": v. I.39.3-4; "Os vossos estatutos vão quebrando": vão infringindo os términos, apesar da nossa lei.

31.1-5
"Eu vi ... os Mínias, que primeiro": os Argonautas (v. IV.83.5-6); "Bóreas, injuriado, e o companheiro / Áquilo ...": para Camões, Bóreas e Áquilo, embora soprando na mesma direcção, são ventos distintos (v. AFGV, Elementos Astronómicos das Obras de Gil Vicente e Camões, Lisboa, 1941, e VI.76.5-6); "Pois se do ajuntamento aventureiro ...": são os "Mínias ajuntados" de IV.83.5-6.

32.3-7
"Nem da mágoa da injúria que sofreis": nem por amor da mágoa; "Que no mundo ganhei, quando venci / As terras Indianas do Oriente": v. I.32.1-7.

33.1-6
"Que o grão Senhor e Fados, ...": o grão Senhor é Júpiter; "Como lhe bem parece ...": lhe, por lhes; "Famas, mores que nunca, determinam": determinam maiores famas do que nunca houve; "Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam / O mal também a Deuses; ...": o sujeito de ensinam é o grão Senhor e Fados; "... que, a segundo / Se vê, ...": que, conforme se verifica, ...
Ort.: baxo (por baixo).

35.2-7
"... foi num ponto": num instante; "Ao grande Eolo mandam ...": da parte de Neptuno mandam ao rei dos ventos; "... que sem conto": sem limite; "Solte as fúrias dos ventos repugnantes": a fúria dos ventos contrários. Repugnantes é latinismo.

36.1-7
"Bem quisera primeiro ali Proteu": o profeta; "Que Tétis, indinada, lhe bradou": a esposa do rei põe termo às discussões.

37.1-5
"Já lá o soberbo Hipótades soltava / Do cárcere fechado os furiosos / Ventos, ...": Hipótades, filho de Hípotes: "Clauserat Hippotides aeterno carcere ventos" (Ov., M, IV.663); "Súbito, o céu sereno se obumbrava": se obumbrava (se obscurecia) é latinismo.
Ort.: varões no v. 4, barões em 33.4; audaces, latinismo (por audazes).

38.2-8
"... a leda, lassa frota": ia alegre, mas cansada; "Era no tempo quando a luz do dia / Do Eóo Hemispério está remota": quando a luz do hemisfério oriental está remota. Em grego significa Aurora; "Os do quarto da prima se deitavam, / Pera o segundo os outros despertavam": assiste-se neste lugar ao render do quarto de prima. O dia de bordo divide-se em quartos de serviço, quer dizer: de quatro em quatro horas entram de serviço novos grupos de homens. O quarto de prima vai das 20 às 24 horas. Acabava o quarto de prima, entrava-se no quarto de modorra (das 0 às 4 horas da manhã), o que explica o ar sonolento dos nautas e a sua necessidade de se entreterem.

39.3-6
"Pelas antenas ...": vergas em que se fixam as velas; "Mas estregando, ...": mas esfregando-os (os olhos).

40.5
"Responde Leonardo ...": aparece pela primeira vez este "soldado bem disposto / Manhoso, cavaleiro e namorado", que vai ter importante papel no Canto IX, est. 75 e segs.

41.5
"Antes de guerra, férvida e robusta": ardente e rija.

42.8
"E estes sejam os Doze de Inglaterra": é muito duvidosa a historicidade deste episódio, mas não pode duvidar-se da existência real do Magriço (Álvaro Vaz Coutinho) na corte de Flandres, personagem que serve de núcleo ao episódio. Como elementos para o estudo deste assunto temos o Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, editado em 1567, mas o episódio já seria conhecido antes de 1554. A descrição do torneio de Londres foi incluída pela primeira vez em prosa na segunda edição dos Diálogos de Vária História, de Pedro de Mariz. Manuel Correia fez um longo comentário em prosa à est. 43. Em 1935 apareceu uma Relação ou Crónica Breve das Cavalarias dos Doze de Inglaterra (ms. quinhentista da Biblioteca Pública do Porto), precedida de um estudo de A. de Magalhães Basto (... ) e com uma advertência preliminar de Joaquim Costa, Porto, 1935. Talvez esta Relação tivesse servido de fonte a Camões.
Ort.: reprendam (por repreendam); nacidos (por nascidos).

43.1-7
"No tempo que do Reino a rédea leve, / João, filho de Pedro, moderava": no tempo em que João conduzia com brandura a rédea do Reino ...; "Do vizinho poder, ...": de Castela; " ... semeava / A fera Erínis dura e má cizânia": lapso do Poeta. Não é de Erínis (uma das Fúrias), mas de Éris (personificação da Discórdia), que se trata. Dura e má cizânia, dura e má discórdia.

44.4
"... ou foi porfia": teimosia.

45.3
"Que eles, em campo raso ou estacada ...": o que é pleonástico. Estacada, campo cercado de estacas para justas ou torneios.

46.1-2
"Mas, como fossem grandes e possantes / No reino os inimigos, ...": v. VI.15.3-7. O duque de Lencastre, João de Gaunt, filho de Eduardo III, rei de Inglaterra, cuja filha D. Filipa casou com o nosso rei D. João I em 2 de Fevereiro de 1387. O duque foi pretendente à coroa de Castela e com esse intento aliou-se ao rei de Portugal, e os exércitos aliados chegaram a entrar em Castela. Tendo desistido da conquista e restabelecido a paz, outra filha do duque, D. Catarina, casou com Henrique II, príncipe herdeiro da coroa de Castela.

47.3-8
"Onde as forças magnânimas provara / Dos companheiros, e benigna estrela": onde experimentara a generosidade das forças dos seus aliados e a sua boa sorte; "Não menos nesta terra exprimentara / Namorados afeitos, ...": também viu que os Portugueses eram dados a sentimentos amorosos quando viu o rei de tal modo apaixonado pela filha do duque que com ela veio a casar.
Ort.: fermosas (por formosas); Ingrês (por Inglês); exprimentara (por experimentara); afeitos (por afectos).

48.1-4
"Este, que socorrer-lhe não queria": socorrê-las (as damas inglesas); "Do Reino lá das terras Iberinas": das terras da Ibéria.

50.1-6
"Destarte as aconselha o Duque experto": experimentado; "Qual a qual tem caído das consortes": qual (cavaleiro) a qual (das companheiras) tem caído a sorte.

51.2
"Toda a corte alvoroça a novidade": a notícia.

52.1-7
"Lá na leal cidade ...": no Porto; "... o que tem o leme do governo": o rei D. João I; "Apercebem-se os doze, ...": aprestam-se; "De elmos, cimeiras, letras e primores": elmo, espécie de capacete de cavaleiro com viseira e crista; cimeira, ornamento do cimo do capacete; letras, motos ou palavras breves que caracterizam as divisas.

53-4-7
"Foram do Duque Inglês exprimentado": é o experto da est. 50.1-6; "Mas um só, que Magriço se dizia": Álvaro Gonçalves Coutinho, irmão do 1.º conde de Marialva e filho de Gonçalo Vaz Coutinho, 1.º marechal de Portugal. A família era de Penedono. O Magriço foi camarista de João, o Sem-Pavor, duque de Borgonha.

54.4-5
"... e várias manhas": vários costumes; "Agora que aparelho certo vejo": agora que vejo os aprestos certos.

55.1-4
E quando caso for que eu, ... / ... / Não for": assimilação de tempos por "E quando caso for ... que eu não seja"; "Por Quem das cousas é última linha": JMR, EN: "Pela vontade de Deus"; ED, a morte; "Pouca falta vos faz a falta minha": ED chama a atenção para o trocadilho.
Ort.: esprito (por espírito).

56.3-8
"... vendo antigos / Lugares que ganhara o pátrio Marte": é impossível de determinar a que lugares se refere o Poeta. MR diz que talvez seja alusão às vitórias dos Portugueses no tempo de D. João I com o duque de Lencastre; "No grande empório foi parar de Frandes": a cidade de Bruges.
Ort.: Perineo (por Pirenéus); Frandes (por Flandres).

57.1-4
"Ali chegado, ou fosse caso ou manha": casualidade ou astúcia; "... a ilustríssima companha / Cortam ...": companha, companhia. V. concordância do predicado, no plural, com o sujeito (colectivo), no singular.

58.3-7
"Que pelo Rei ...": que por meio do rei; "O Mavorte feroz ...": simboliza os cavaleiros portugueses; "Vestem-se elas de cores e de sedas": vestem-se de sedas de várias cores (JMR e ALV, EN, hendíadis).
Ort.: arman-se, na edição princeps (por armam-se).

59.5-7
"... que acabado / Será o negócio assi na corte Inglesa, / Que as damas vencedoras se conheçam": que o negócio será acabado na corte inglesa de modo que as damas por vencedoras se conheçam.

60.1-5
"Já num sublime e púbrico teatro": já num alto palanque destinado ao público; "se assenta o Rei inglês ...": Ricardo II; "... do Tejo ao Batro": do Poente ao Oriente (o Bactro é um afluente do Oxo, que passa por Bactra, na Bactriana). V. II.53.6-8.

61.2
"... com feroz sembrante": com feroz aspecto.

63.1-4
"A dama, como ouviu ...": a dama, assim que ouviu; "Se alegra e veste ali do animal de Hele": veste-se ali do velo do animal de Hele, isto é, de oiro (v. III.12.1-4); "Que a gente bruta ...": que a gente rude, selvagem.
Ort.: abaxam (por abaixam).

64.2-5
"Que faz que o chão debaixo todo treme": por todo trema; "Qual do cavalo voa, que não dece": qual, em vez de descer do cavalo, voa. O que de dece é pleonástico.

65.6-8
"... já fora vão do valo": estacada que limitava o campo do torneio; "Mais acham já que arnês, escudo e malha": acham a valentia dos Portugueses.

66.6
"Que com finezas altas ...": primores de justa.

67
Ort.: fermosa (por formosa).

68.3-8
"... onde um serviço / Notável à Condessa fez de Frandes": várias hipóteses têm surgido sobre quem seria esta condessa, mas nada com força probatória. MC conta que em França o Magriço livrou a condessa Madame Lianor de um aleive que lhe alevantou um alemão de nome Ranulfo, de Colónia, o qual matou em desafio na cidade de Dunquerque. Em Orleães também Magriço teria vencido em desafio Monsieur de Lansay diante de el-rei de França e lhe tirou um colar do pescoço; "... que o destino / Lá teve de Torcato e de Corvino»: Tito Mânlio na campanha contra os Gauleses em 361 a. C. matou em duelo um gaulês de grande estatura, tirou-lhe o colar ("Jacentis inde corpus ab omni alia vexatione intactum uno torque spoliavit, quem respersum cruore coelo circumdedit suo.") e adornou-se com ele, e daí o cognome de Torquato (T. Lívio VII.9-10). Marco Valério, "tribunus militum adulescens", no ano de 348 a. C., também matou em combate singular um gaulês, tendo sido ajudado por um corvo que esvoaçava em face do inimigo: "Corvus repente in galea consedit, in hostem versus" (T. Lívio, VII.26).

69.1
"Outro também dos doze em Alemanha": MC diz que foi Álvaro Vaz de Almada que em Basileia lutou com um alemão. O alemão saiu-se com uma arma secreta que levava escondida, com um gancho, pelo qual aferrou em um ombro de Vaz de Almada, que lhe rompeu o arnês e o feriu na carne. Neste aperto o nosso compatriota ferrou-se com o alemão, deitou-lhe as mãos às guelas e de tal modo lhas apertou que lhe fez perder a vida. Todas estas proezas ficam por conta do sentido histórico de MC.

70.1-8
"... assi prontos estando": estando assim atentos; "E, porque o vento vinha refrescando": e porque o vento se tornava mais forte; "Os traquetes das gáveas tomar manda": "segundo Esparteiro, DIM, antigamente as gáveas eram chamadas traquetes das gáveas. São as duas velas sobranceiras aos paga-figos, sendo a de vante denominada velacho, e a do grande, gávea"; "... tomar manda": como a força do vento aumentasse, o mestre mandou ferrar (colher, amarrar) as duas gáveas (velacho e gávea); "... que o vento crece / Daquela nuvem negra que aparece!": sinal de temporal.
Ort.: crece (por cresce).

71
Ort.: indinados (por indignados).

72.4
"Toma grão suma d' água ...": toma grande quantidade de água.

73.3-7
"Os balanços que ... / Deram à nau, num bordo os derribaram": com a violência das ondas os soldados são atirados de encontro a uma das amuradas; a nau é a S. Gabriel; "Talhas lhe punham, ...": não chegando três marinheiros para manter o leme nos rumos desejados, são auxiliados pelos companheiros que manobram as talhas, movimentando a cana do leme. Armando as talhas, o leme é manejado com menos esforço. A talha, ou podia ser a corda que se prende à cana do leme do navio, para governar melhor, ou o aparelho de força composto por um cadernal de dois gornes e um moitão (talha singela) ou por dois cadernais de dois gornes (talha dobrada). Os moitões ou cadernais são ligados por cabos (cordas).
Ort.: creceram (por cresceram).

74.8
"Vendo ...": vendo-se.

75.1-6
"A nau grande, em que vai Paulo da Gama": a nau S. Rafael; "Toda a nau de Coelho": a Bérrio.
Ort.: masto (por mastro).

76.4-5
"As íntimas entranhas do Profundo": do Inferno; "Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, ...": Noto e Austro, ventos do sul; Bóreas e Áquilo, ventos do nordeste.

77.1-5
"As Alciónias aves triste canto": Alcíone, filha de Éolo, rei dos ventos. Seu marido, Ceíce, teve de ir consultar um oráculo. Surpreendido por uma tempestade, teve o navio destruído e ele próprio se afogou. O corpo acabou por dar à costa, onde sua mulher o descobriu. De desespero, ela transforma-se em alcião, enquanto descobre o corpo de seu marido. Os deuses, compadecidos, mudaram-nos em aves a ambos. A história vem belamente contada por Ov., M, XI.410-748; "Os delfins namorados ...": os golfinhos.

78.3-8
"O grão ferreiro sórdido ..." Vulcano; "... que obrou / Do enteado as armas radiantes: Eneias, filho de Anquises, que, guardando rebanhos no monte Ida, foi amado de Vénus, era enteado de Vulcano, por este ser o marido da deusa. A rogo desta, Vulcano forjou as armas para Eneias; "No grão dilúvio ...": refere-se ao dilúvio de que participaram Deucalião e Pirra. Zeus decidiu enviar ao mundo um grande dilúvio, poupando os dois justos, Deucalião e Pirra. Construída a "arca", a conselho de Prometeu, nela flutuaram durante nove dias e nove noites, acabando por abordar às montanhas da Tessália. Para obterem companheiros foram aconselhados por Zeus a lançar por cima dos ombros "os ossos de suas mães", que Deucalião interpretou as pedras da Terra, mãe universal. E assim nasceram homens e mulheres.

79
Ort.: indinadas (por indignadas).

80.4-6
"Ora com nova fúria ...": ora que com nova fúria; "Onde nenhum ...": quando.
Ort.: impossíbil, latinismo (por impossível).

81.4-8
"Por metade das águas Eritreias": pelo meio das ...; "Tu, que livraste Paulo e o defendeste": "E sendo o navio arrebatado, e não podendo, ir contra o vento, éramos levados, entregue o navio à discrição dos ventos. E, arrojados da corrente a uma pequena ilha, que se chama Cauda, apenas nos podemos assenhorear do bote. Tendo-o trazido a nós, se valiam de todos os meios, cingindo o navio, temerosos de dar na Sirte ..."' ("Actos dos Apóstolos", XXVII, 15-17); "... o segundo / Povoador do alagado e vácuo mundo": Noé.

82.2-4
"Doutra Cila e Caríbdis já passados": v. II.45.6; "Outros Acroceráunios infamados": cordilheira ao longo da costa do Epiro. Termina em promontório perigoso para a navegação, donde o epíteto de "infamado", isto é, de triste fama. "A Lacinio promunturio secundus Europae sinus incipit magno ambitu flexus et Acroceraunio Epiri finitus promunturio" (Plínio, III.XI.97).

83.1-7
"Oh ditosos aqueles ...": recorda os versos da Eneida (I.94-96): "O terque quaterque beati, / quis ante ora patrum Troiae sub moenibus altis / contigit oppetere!"; "De quem se ganha a vida com perdê-la": de quem se alcança a imortalidade, perdendo a vida.

84.4-6
"Pela miúda enxárcia assoviando": a enxárcia são os cabos que aguentam os mastros e mastaréus; "Relâmpados medonhos não cessavam, / Feros trovões, relâmpados e feros trovões não cessavam.
Ort.: exos, na edição princeps (por eixos).

85.1-6
"Mas já a amorosa Estrela cintilava": Vénus é uma estrela. Como estrela da manhã, aparece ao romper do dia: "mensageira do dia"; "A Deusa que nos Céus a governava": Vénus; "De quem foge o ensífero Orionte": a constelação mensageira da tempestade, o Orionte ensífero (isto é, armado de espada), foge diante de Vénus, mensageira da bonança. Oríon e Orião são as formas correctas.

86.3-8
"Tão danada tenção ...": tão danado propósito; "Isto dizendo, dece ao mar aberto": ao alto mar; "Grinaldas nas cabeças pôr de rosas": pôr nas cabeças grinaldas de rosas.
Ort.: dece (por desce).

87.2-6
"Sobre cabelos louros a porfia": diligentemente, em profusão; "Dos ventos a nojosa companhia": repugnante companhia.
Ort.: nacem (por nascem); fermosas (por formosas).

88.2.4.5
Lhe, por lhes.

88.8
"Assi disse a belíssima Oritia": Oritia é uma das Nereidas, e não a filha de Erecteu, rei de Atenas, raptada por Bóreas (v. Ov., M, VI.675-722). Hesíodo não a cita entre as suas cinquenta Nereidas, mas Homero cita uma filha de Nereu com este nome (Ilíada, XVIII.148).

90.1-5
"... a fermosa Galateia": outra das Nereidas; "E bem crê que com ele tudo acabe": crê conseguir de Noto o que pretende; "Não sabe o bravo ...": o fero.
Ort.: fermosa (por formosa).

91.5-8
"Ele lhe prometeu, ...": lhes prometeu; "Nas belas mãos tomando-lhe homenagem / De lhe serem leais esta viagem": os dois lhe estão por lhes. Vénus exige-lhes em juramento um preito de lealdade.

92.2-3
"Por onde o Ganges murmurando soa": o mais notável rio da Índia, considerado sagrado pelos naturais; "Quando da celsa gávea ...": quando da alta ou aérea gávea (celsa é latinismo). A gávea é um cesto, espécie de plataforma, no alto de um mastro (de vante). A 20 de Maio chegavam os navegadores à vista de Calecute (v. Castanheda, I.13) e dos primeiros / Mares ..."; dos mares já passados.

93.2-6
"... que aparece": liga-se a terra; "De ledo em ver que a terra se conhece": é conhecida.
Ort.: giolhos (por joelhos); agardeceu (por agradeceu).

94
Ort.: exprimentava (por experimentava). Asinha: depressa (arcaico).

95.8
"Animais de Moscóvia zibelinos": isto é, os animais de pele de zibelina. Variedade de marta, também chamada marta zibelina. No tempo de Camões Moscóvia era certamente o centro comercial daqueles artigos.

97.5
"... os torpes frios ...": que entorpecem. O Poeta lembrou-se de torpidus (de torpeo) e não de turpis.

98.8
"... virtude justa e dura": merecimento.
Ort.: baxo (por baixo); afeitos (por afectos).