Os Lusíadas - Canto IV

 

 

 


Os Lusíadas

 

 


Canto IV

 

1
«DESPOIS de procelosa tempestade,
Nocturna sombra e sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,
Esperança de porto e salvamento;
Aparta o Sol a negra escuridade,
Removendo o temor ao pensamento:
Assi no Reino forte aconteceu
Despois que o Rei Fernando faleceu.

2
«Porque, se muito os nossos desejaram
Quem os danos e ofensas vá vingando
Naqueles que tão bem se aproveitaram
Do descuido remisso de Fernando,
Despois de pouco tempo o alcançaram,
Joane, sempre ilustre, alevantando
Por Rei, como de Pedro único herdeiro
(Ainda que bastardo) verdadeiro.

3
«Ser isto ordenação dos Céus divina
Por sinais muito claros se mostrou,
Quando em Évora a voz de ũa minina,
Ante tempo falando, o nomeou.
E, como cousa, enfim, que o Céu destina,
No berço o corpo e a voz alevantou:
– «Portugal, Portugal (alçando a mão,
Disse) polo Rei novo, Dom João!»

4
«Alteradas então do Reino as gentes
Co ódio que ocupado os peitos tinha,
Absolutas cruezas e evidentes
Faz do povo o furor, por onde vinha;
Matando vão amigos e parentes
Do adúltero Conde e da Rainha,
Com quem sua incontinência desonesta
Mais (despois de viúva) manifesta.

5
«Mas ele, enfim, com causa desonrado,
Diante dela a ferro frio morre,
De outros muitos na morte acompanhado,
Que tudo o fogo erguido queima e corre:
Quem, como Astianás, precipitado,
Sem lhe valerem ordens, de alta torre;
A quem ordens, nem aras, nem respeito;
Quem nu por ruas, e em pedaços feito.

6
«Podem-se pôr em longo esquecimento
As cruezas mortais que Roma viu,
Feitas do feroz Mário e do cruento
Sila, quando o contrário lhe fugiu.
Por isso Lianor, que o sentimento
Do morto Conde ao mundo descobriu,
Faz contra Lusitânia vir Castela,
Dizendo ser sua filha herdeira dela.

7
«Beatriz era a filha, que casada
Co Castelhano está que o Reino pede,
Por filha de Fernando reputada,
Se a corrompida fama lho concede.
Com esta voz Castela alevantada,
Dizendo que esta filha ao pai sucede,
Suas forças ajunta, pera as guerras,
De várias regiões e várias terras.

8
«Vêm de toda a província que de um Brigo
(Se foi) já teve o nome derivado;
Das terras que Fernando e que Rodrigo
Ganharam do tirano e Mauro estado.
Não estimam das armas o perigo
Os que cortando vão co duro arado
Os campos Lioneses, cuja gente
Cos Mouros foi nas armas excelente.

9
«Os Vândalos, na antiga valentia
Ainda confiados, se ajuntavam
Da cabeça de toda Andaluzia,
Que do Guadalquibir as águas lavam.
A nobre Ilha também se apercebia
Que antigamente os Tírios habitavam,
Trazendo por insígnias verdadeiras
As Hercúleas colunas nas bandeiras.

10
«Também vêm lá do Reino de Toledo,
Cidade nobre e antiga, a quem cercando
O Tejo em torno vai, suave e ledo,
Que das serras de Conca vem manando.
A vós outros também não tolhe o medo,
Ó sórdidos Galegos, duro bando,
Que, pera resistirdes, vos armastes,
Àqueles cujos golpes já provastes.

11
«Também movem da guerra as negras fúrias
A gente Bizcainha, que carece
De polidas razões, e que as injúrias
Muito mal dos estranhos compadece.
A terra de Guipúscua e das Astúrias,
Que com minas de ferro se ennobrece,
Armou dele os soberbos moradores,
Pera ajudar na guerra a seus senhores.

12
«Joane, a quem do peito o esforço crece,
Como a Sansão Hebreio da guedelha,
Posto que tudo pouco lhe parece,
Cos poucos do seu Reino se aparelha;
E, não porque conselho lhe falece,
Cos principais senhores se aconselha,
Mas só por ver das gentes as sentenças,
Que sempre houve entre muitos diferenças.

13
«Não falta com razões quem desconcerte
Da opinião de todos, na vontade;
Em quem o esforço antigo se converte
Em desusada e má deslealdade,
Podendo o temor mais, gelado, inerte,
Que a própria e natural fidelidade.
Negam o Rei e a Pátria e, se convém,
Negarão (como Pedro) o Deus que têm.

14
«Mas nunca foi que este erro se sentisse
No forte Dom Nuno Álveres; mas antes,
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,
Reprovando as vontades inconstantes,
Àquelas duvidosas gentes disse,
Com palavras mais duras que elegantes,
A mão na espada, irado e não facundo,
Ameaçando a terra, o mar e o mundo:

15
– «Como? Da gente ilustre Portuguesa
Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?
Como? Desta província, que princesa
Foi das gentes na guerra em toda parte,
Há-de sair quem negue ter defesa?
Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte
De Português, e por nenhum respeito
O próprio Reino queira ver sujeito?

16
«Como? Não sois vós inda os descendentes
Daqueles que, debaixo da bandeira
Do grande Henriques, feros e valentes,
Vencestes esta gente tão guerreira,
Quando tantas bandeiras, tantas gentes
Puseram em fugida, de maneira
Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
Presos, afora a presa que tiveram?

17
«Com quem foram contino sopeados
Estes, de quem o estais agora vós,
Por Dinis e seu filho sublimados,
Senão cos vossos fortes pais e avôs?
Pois se, com seus descuidos ou pecados,
Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,
Torne-vos vossas forças o Rei novo,
Se é certo que co Rei se muda o povo.

18
«Rei tendes tal que, se o valor tiverdes
Igual ao Rei que agora alevantastes,
Desbaratareis tudo o que quiserdes,
Quanto mais a quem já desbaratastes.
E se com isto, enfim, vos não moverdes
Do penetrante medo que tomastes,
Atai as mãos a vosso vão receio,
Que eu só resistirei ao jugo alheio.

19
«Eu só, com meus vassalos e com esta
(E dizendo isto arranca meia espada),
Defenderei da força dura e infesta
A terra nunca de outrem sojugada.
Em virtude do Rei, da pátria mesta,
Da lealdade já por vós negada,
Vencerei não só estes adversários,
Mas quantos a meu Rei forem contrários!»

20
«Bem como entre os mancebos recolhidos
Em Canúsio, relíquias sós de Canas,
Já pera se entregar quási movidos
À fortuna das forças Africanas,
Cornélio moço os faz que, compelidos
Da sua espada, jurem que as Romanas
Armas não deixarão, enquanto a vida
Os não deixar ou nelas for perdida:

21
«Destarte a gente força e esforça Nuno,
Que, com lhe ouvir as últimas razões,
Removem o temor frio, importuno,
Que gelados lhe tinha os corações.
Nos animais cavalgam de Neptuno,
Brandindo e volteando arremessões;
Vão correndo e gritando, a boca aberta:
– «Viva o famoso Rei que nos liberta!»

22
«Das gentes populares, uns aprovam
A guerra com que a pátria se sustinha;
Uns as armas alimpam e renovam,
Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
Capacetes estofam, peitos provam,
Arma-se cada um como convinha;
Outros fazem vestidos de mil cores,
Com letras e tenções de seus amores.

23
«Com toda esta lustrosa companhia
Joane forte sai da fresca Abrantes,
Abrantes, que também da fonte fria
Do Tejo logra as águas abundantes.
Os primeiros armígeros regia
Quem pera reger era os mui possantes
Orientais exércitos sem conto
Com que passava Xerxes o Helesponto;

24
«Dom Nuno Álveres digo: verdadeiro
Açoute de soberbos Castelhanos,
Como já o fero Huno o foi primeiro
Pera Franceses, pera Italianos.
Outro também, famoso cavaleiro,
Que a ala direita tem dos Lusitanos,
Apto pera mandá-los e regê-los,
Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.

25
«E da outra ala, que a esta corresponde,
Antão Vasques de Almada é capitão,
Que despois foi de Abranches nobre Conde;
Das gentes vai regendo a sestra mão.
Logo na retaguarda não se esconde
Das Quinas e Castelos o pendão,
Com Joane, Rei forte em toda parte,
Que escurecendo o preço vai de Marte.

26
«Estavam pelos muros, temerosas
E de um alegre medo quási frias,
Rezando, as mães, irmãs, damas e esposas,
Prometendo jejuns e romarias.
Já chegam as esquadras belicosas
Defronte das imigas companhias,
Que com grita grandíssima os recebem;
E todas grande dúvida concebem.

27
«Respondem as trombetas mensageiras,
Pífaros sibilantes e atambores;
Alférezes volteiam as bandeiras,
Que variadas são de muitas cores.
Era no seco tempo que nas eiras
Ceres o fruto deixa aos lavradores;
Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto;
Baco das uvas tira o doce mosto.

28
«Deu sinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
Atrás tornou as ondas de medroso.
Ouviu[-o] o Douro e a terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo duvidoso;
E as mães, que o som terríbil escuitaram,
Aos peitos os filhinhos apertaram.

29
«Quantos rostos ali se vêm sem cor,
Que ao coração acode o sangue amigo!
Que, nos perigos grandes, o temor
É maior muitas vezes que o perigo.
E se o não é, parece-o; que o furor
De ofender ou vencer o duro imigo
Faz não sentir que é perda grande e rara
Dos membros corporais, da vida cara.

30
«Começa-se a travar a incerta guerra:
De ambas partes se move a primeira ala;
Uns leva a defensão da própria terra,
Outros as esperanças de ganhá-la.
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala:
Derriba e encontra e a terra enfim semeia
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.

31
«Já pelo espesso ar os estridentes
Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaxo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes
Quedas co as duras armas tudo atroam.
Recrecem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.

32
«Eis ali seus irmãos contra ele vão
(Caso feio e cruel!); mas não se espanta,
Que menos é querer matar o irmão,
Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta.
Destes arrenegados muitos são
No primeiro esquadrão, que se adianta
Contra irmãos e parentes (caso estranho),
Quais nas guerras civis de Júlio [e] Magno.

33
«Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,
Catilina, e vós outros dos antigos
Que contra vossas pátrias com profano
Coração vos fizestes inimigos:
Se lá no reino escuro de Sumano
Receberdes gravíssimos castigos,
Dizei-lhe que também dos Portugueses
Alguns tredores houve algũas vezes.

34
«Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
Tantos dos inimigos a eles vão!
Está ali Nuno, qual pelos outeiros
De Ceita está o fortíssimo lião
Que cercado se vê dos cavaleiros
Que os campos vão correr de Tutuão:
Perseguem-no com as lanças, e ele, iroso,
Torvado um pouco está, mas não medroso;

35
«Com torva vista os vê, mas a natura
Ferina e a ira não lhe compadecem
Que as costas dê, mas antes na espessura
Das lanças se arremessa, que recrecem.
Tal está o cavaleiro, que a verdura
Tinge co sangue alheio; ali perecem
Alguns dos seus, que o ânimo valente
Perde a virtude contra tanta gente.

36
«Sentiu Joane a afronta que passava
Nuno, que, como sábio capitão,
Tudo corria e via e a todos dava,
Com presença e palavras, coração.
Qual parida lioa, fera e brava,
Que os filhos, que no ninho sós estão,
Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
O pastor de Massília lhos furtara,

37
«Corre raivoso e freme e com bramidos
Os montes Sete Irmãos atroa e abala:
Tal Joane, com outros escolhidos
Dos seus, correndo acode à primeira ala:
– «Ó fortes companheiros, ó subidos
Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
Defendei vossas terras, que a esperança
Da liberdade está na nossa lança!

38
«Vedes-me aqui, Rei vosso e companheiro,
Que entre as lanças e setas e os arneses
Dos inimigos corro e vou primeiro;
Pelejai, verdadeiros Portugueses!»
Isto disse o magnânimo guerreiro
E, sopesando a lança quatro vezes,
Com força tira; e deste único tiro
Muitos lançaram o último suspiro.

39
«Porque eis os seus, acesos novamente
Dũa nobre vergonha e honroso fogo,
Sobre qual mais, com ânimo valente,
Perigos vencerá do Márcio jogo,
Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente;
Rompem malhas primeiro e peitos logo.
Assi recebem junto e dão feridas,
Como a quem já não dói perder as vidas.

40
«A muitos mandam ver o Estígio lago,
Em cujo corpo a morte e o ferro entrava.
O Mestre morre ali de Santiago,
Que fortìssimamente pelejava;
Morre também, fazendo grande estrago,
Outro Mestre cruel de Calatrava.
Os Pereiras também, arrenegados,
Morrem, arrenegando o Céu e os Fados.

41
«Muitos também do vulgo vil, sem nome,
Vão, e também dos nobres, ao Profundo,
Onde o trifauce Cão perpétua fome
Tem das almas que passam deste mundo.
E por que mais aqui se amanse e dome
A soberba do imigo furibundo,
A sublime bandeira Castelhana
Foi derribada òs pés da Lusitana.

42
«Aqui a fera batalha se encruece
Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
A multidão da gente que perece
Tem as flores da própria cor mudadas.
Já as costas dão e as vidas; já falece
O furor e sobejam as lançadas;
Já de Castela o Rei desbaratado
Se vê e de seu propósito mudado.

43
«O campo vai deixando ao vencedor,
Contente de lhe não deixar a vida.
Seguem-no os que ficaram, e o temor
Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
Encobrem no profundo peito a dor
Da morte, da fazenda despendida,
Da mágoa, da desonra e triste nojo
De ver outrem triunfar de seu despojo.

44
«Alguns vão maldizendo e blasfemando
Do primeiro que guerra fez no mundo;
Outros a sede dura vão culpando
Do peito cobiçoso e sitibundo,
Que, por tomar o alheio, o miserando
Povo aventura às penas do Profundo,
Deixando tantas mães, tantas esposas,
Sem filhos, sem maridos, desditosas.

45
«O vencedor Joane esteve os dias
Costumados no campo, em grande glória;
Com ofertas, despois, e romarias,
As graças deu a Quem lhe deu vitória.
Mas Nuno, que não quer por outras vias
Entre as gentes deixar de si memória
Senão por armas sempre soberanas,
Pera as terras se passa Transtaganas.

46
«Ajuda-o seu destino de maneira
Que fez igual o efeito ao pensamento,
Porque a terra dos Vândalos, fronteira,
Lhe concede o despojo e o vencimento.
Já de Sevilha a Bética bandeira,
E de vários senhores, num momento
Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa,
Obrigados da força Portuguesa.

47
«Destas e outras vitórias longamente
Eram os Castelhanos oprimidos,
Quando a paz, desejada já da gente,
Deram os vencedores aos vencidos,
Despois que quis o Padre omnipotente
Dar os Reis inimigos por maridos
Às duas Ilustríssimas Inglesas,
Gentis, fermosas, ínclitas princesas.

48
«Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter imigo já a quem faça dano;
E assi, não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede.

49
«Eis mil nadantes aves, pelo argento
Da furiosa Tétis inquieta,
Abrindo as pandas asas vão ao vento,
Pera onde Alcides pôs a extrema meta.
O monte Abila e o nobre fundamento
De Ceita toma, e o torpe Mahometa
Deita fora, e segura toda Espanha
Da Juliana, má e desleal manha.

50
«Não consentiu a morte tantos anos
Que de Herói tão ditoso se lograsse
Portugal, mas os coros soberanos
Do Céu supremo quis que povoasse.
Mas, pera defensão dos Lusitanos,
Deixou Quem o levou, quem governasse
E aumentasse a terra mais que dantes:
Ínclita geração, altos Infantes.

51
«Não foi do Rei Duarte tão ditoso
O tempo que ficou na suma alteza,
Que assi vai alternando o tempo iroso
O bem co mal, o gosto co a tristeza.
Quem viu sempre um estado deleitoso?
Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?
Pois inda neste Reino e neste Rei
Não usou ela tanto desta lei?

52
«Viu ser cativo o santo irmão Fernando
(Que a tão altas empresas aspirava),
Que, por salvar o povo miserando
Cercado, ao Sarraceno se entregava.
Só por amor da pátria está passando
A vida, de senhora feita escrava,
Por não se dar por ele a forte Ceita.
Mais o público bem que o seu respeita.

53
«Codro, por que o inimigo não vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Régulo, por que a pátria não perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que se Espanha não temesse,
A cativeiro eterno se convida!
Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
Nem os Décios leais, fizeram tanto.

54
«Mas Afonso, do Reino único herdeiro,
Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,
Que a soberba do Bárbaro fronteiro
Tornou em baxa e humílima miséria,
Fora por certo invicto cavaleiro,
Se não quisera ir ver a terra Ibéria,
Mas África dirá ser impossíbil
Poder ninguém vencer o Rei terríbil.

55
«Este pôde colher as maçãs de ouro
Que somente o Tiríntio colher pôde.
Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro
A cerviz inda agora não sacode.
Na fronte a palma leva e o verde louro
Das vitórias do Bárbaro, que acode
A defender Alcácer, forte vila,
Tângere populoso e a dura Arzila.

56
«Porém elas, enfim, por força entradas,
Os muros abaxaram de diamante
Às Portuguesas forças, costumadas
A derribarem quanto acham diante.
Maravilhas em armas, estremadas
E de escritura dinas elegante,
Fizeram cavaleiros nesta empresa,
Mais afinando a fama Portuguesa.

57
«Porém despois, tocado de ambição
E glória de mandar, amara e bela,
Vai cometer Fernando de Aragão,
Sobre o potente Reino de Castela.
Ajunta-se a inimiga multidão
Das soberbas e várias gentes dela,
Desde Cáliz ao alto Perineu,
Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.

58
«Não quis ficar nos Reinos occioso
O mancebo Joane, e logo ordena
De ir ajudar o pai ambicioso,
Que então lhe foi ajuda não pequena.
Saiu-se, enfim, do trance perigoso,
Com fronte não torvada, mas serena.
Desbaratado o pai sanguinolento,
Mas ficou duvidoso o vencimento;

59
«Porque o filho, sublime e soberano,
Gentil, forte, animoso cavaleiro,
Nos contrários fazendo imenso dano,
Todo um dia ficou no campo inteiro.
Destarte foi vencido Octaviano,
E António vencedor, seu companheiro,
Quando daqueles que César mataram
Nos Filípicos campos se vingaram.

60
«Porém, despois que a escura noite eterna
Afonso apousentou no Céu sereno,
O Príncipe que o Reino então governa
Foi Joane segundo e Rei trezeno.
Este, por haver fama sempiterna,
Mais do que tentar pode homem terreno
Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Os términos, que eu vou buscando agora.

61
«Manda seus mensageiros, que passaram
Espanha, França, Itália celebrada
E lá no ilustre porto se embarcaram
Onde já foi Parténope enterrada:
Nápoles, onde os Fados se mostraram,
Fazendo-a a várias gentes subjugada,
Pola ilustrar, no fim de tantos anos,
Co senhorio de ínclitos Hispanos.

62
«Polo mar alto Sículo navegam;
Vão-se às praias de Rodes arenosas;
E dali às ribeiras altas chegam
Que com morte de Magno são famosas;
Vão a Mênfis, e às terras que se regam
Das enchentes Nilóticas undosas;
Sobem à Etiópia, sobre Egipto,
Que de Cristo lá guarda o santo rito.

63
«Passam também as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau passou;
Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
Que o filho de Ismael co nome ornou.
As costas odoríferas Sabeias,
Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
Cercam, com toda a Arábia descoberta,
Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.

64
«Entram no Estreito Pérsico, onde dura
Da confusa Babel inda a memória;
Ali co Tigre o Eufrates se mistura,
Que as fontes onde nascem têm por glória.
Dali vão em demanda da água pura
(Que causa inda será de larga história)
Do Indo, pelas ondas do Oceano,
Onde não se atreveu passar Trajano.

65
«Viram gentes incógnitas e estranhas
Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,
Vendo vários costumes, várias manhas,
Que cada região produze e cria.
Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
Tornar-se facilmente não podia.
Lá morreram, enfim, e lá ficaram,
Que à desejada pátria não tornaram.

66
«Parece que guardava o claro Céu
A Manuel e seus merecimentos
Esta empresa tão árdua, que o moveu
A subidos e ilustres movimentos;
Manuel, que a Joane sucedeu
No Reino e nos altivos pensamentos,
Logo como tomou do Reino cargo,
Tomou mais a conquista do mar largo.

67
«O qual, como do nobre pensamento
Daquela obrigação que lhe ficara
De seus antepassados, cujo intento
Foi sempre acrecentar a terra cara,
Não deixasse de ser um só momento
Conquistado, no tempo que a luz clara
Foge, e as estrelas nítidas que saem
A repouso convidam quando caem,

68
«Estando já deitado no áureo leito,
Onde imaginações mais certas são,
Revolvendo contino no conceito
De seu ofício e sangue a obrigação,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o coração;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em várias formas lhe aparece.

69
«Aqui se lhe apresenta que subia
Tão alto que tocava à prima Esfera,
Donde diante vários mundos via,
Nações de muita gente, estranha e fera.
E lá bem junto donde nace o dia,
Despois que os olhos longos estendera,
Viu de antigos, longincos e altos montes
Nacerem duas claras e altas fontes.

70
«Aves agrestes, feras e alimárias
Pelo monte selvático habitavam;
Mil árvores silvestres e ervas várias
O passo e o trato às gentes atalhavam.
Estas duras montanhas, adversárias
De mais conversação, por si mostravam
Que, dês que Adão pecou aos nossos anos,
Não as romperam nunca pés humanos.

71
«Das águas se lhe antolha que saíam,
Par' ele os largos passos inclinando,
Dous homens, que mui velhos pareciam,
De aspeito, inda que agreste, venerando.
Das pontas dos cabelos lhe saíam
Gotas, que o corpo todo vão banhando;
A cor da pele, baça e denegrida;
A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

72
«D'ambos de dous a fronte coroada
Ramos não conhecidos e ervas tinha.
Um deles a presença traz cansada,
Como quem de mais longe ali caminha;
E assi a água, com ímpeto alterada,
Parecia que doutra parte vinha,
Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
Vai buscar os abraços de Aretusa.

73
«Este, que era o mais grave na pessoa,
Destarte pera o Rei de longe brada:
– «Ó tu, a cujos reinos e coroa
Grande parte do mundo está guardada,
Nós outros, cuja fama tanto voa,
Cuja cerviz bem nunca foi domada,
Te avisamos que é tempo que já mandes
A receber de nós tributos grandes.

74
«Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o berço verdadeiro;
Estoutro é o Indo, Rei que, nesta serra
Que vês, seu nascimento tem primeiro.
Custar-t' -emos contudo dura guerra;
Mas, insistindo tu, por derradeiro,
Com não vistas vitórias, sem receio
A quantas gentes vês porás o freio.»

75
«Não disse mais o Rio ilustre e santo,
Mas ambos desparecem num momento.
Acorda Emanuel cum novo espanto
E grande alteração de pensamento.
Estendeu nisto Febo o claro manto
Pelo escuro Hemispério somnolento;
Veio a manhã no céu pintando as cores
De pudibunda rosa e roxas flores.

76
«Chama o Rei os senhores a conselho
E propõe-lhe as figuras da visão;
As palavras lhe diz do santo velho,
Que a todos foram grande admiração.
Determinam o náutico aparelho,
Pera que, com sublime coração,
Vá a gente que mandar cortando os mares
A buscar novos climas, novos ares.

77
«Eu, que bem mal cuidava que em efeito
Se pusesse o que o peito me pedia,
Que sempre grandes coisas deste jeito,
Pres[s]ago, o coração me prometia,
Não sei por que razão, por que respeito,
Ou por que bom sinal que em mi se via,
Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave
Deste cometimento grande e grave.

78
«E com rogo e palavras amorosas,
Que é um mando nos Reis que a mais obriga,
Me disse: – «As cousas árduas e lustrosas
Se alcançam com trabalho e com fadiga;
Faz as pessoas altas e famosas
A vida que se perde e que periga,
Que, quando ao medo infame não se rende,
Então, se menos dura, mais se estende.

79
«Eu vos tenho entre todos escolhido
Pera ũa empresa, qual a vós se deve,
Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
O que eu sei que por mi vos será leve.»
«Não sofri mais, mas logo: – «Ó Rei subido,
Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
É tão pouco por vós que mais me pena
Ser esta vida cousa tão pequena.

80
«Imaginai tamanhas aventuras
Quais Euristeu a Alcides inventava:
O lião Cleonéu, Harpias duras,
O porco de Erimanto, a Hidra brava,
Decer, enfim, às sombras vãs e escuras
Onde os campos de Dite a Estige lava;
Porque a maior perigo, a mor afronta,
Por vós, ó Rei, o esprito e carne é pronta.»

81
«Com mercês sumptuosas me agardece
E com razões me louva esta vontade;
Que a virtude louvada vive e crece
E o louvor altos casos persuade.
A acompanhar-me logo se oferece,
Obrigado d' amor e d' amizade,
Não menos cobiçoso de honra e fama,
O caro meu irmão Paulo da Gama.

82
«Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
De trabalhos mui grande sofredor.
Ambos são de valia e de conselho,
D' experiência em armas e furor.
Já de manceba gente me aparelho,
Em que crece o desejo do valor;
Todos de grande esforço; e assi parece
Quem a tamanhas cousas se oferece.

83
«Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mínias ajuntados,
Pera que o Véu dourado combatessem,
Na fatídica nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxínio, aventureira.

84
«E já no porto da ínclita Ulisseia,
Cum alvoroço nobre e cum desejo
(Onde o licor mistura e branca areia
Co salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes estão; e não refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marítima e a de Marte
Estão pera seguir-me a toda a parte,

85
«Pelas praias vestidos os soldados
De várias cores vêm e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Pera buscar do mundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeiam os aéreos estandartes;
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.

86
«Despois de aparelhados, desta sorte,
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhámos a alma pera a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte
Sustenta só co a vista veneranda,
Implorámos favor que nos guiasse
E que nossos começos aspirasse.

87
«Partimo-nos assi do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

88
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saüdosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.

89
«Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

90
«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, o filho caro,
A fazer o funéreo encerramento
Onde sejas de pexes mantimento?»

91
«Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?»

92
«Nestas e outras palavras que diziam,
De amor e de piadosa humanidade,
Os velhos e os mininos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quási movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.

93
«Nós outros, sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

94
«Mas um velho, d' aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só d' experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
– «Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cũa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

96
«Dura inquietação d'alma e da vida
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

97
«A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
D' ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

98
«Mas, ó tu, geração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pôs neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade d' ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e d' armas te deitou:

99
«Já que nesta gostosa vaïdade
Tanto enlevas a leve fantasia,
Já que à bruta crueza e feridade
Puseste nome, esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá:

100
«Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

101
«Deixas criar às portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe;
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor, com larga cópia,
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia.

102
«Oh, maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pôs em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juízo algum, alto e profundo,
Nem cítara sonora ou vivo engenho
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!

103
«Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos, que a movera!

104
«Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector co filho, dando
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mísera sorte! Estranha condição!»

 

 


NOTAS

1.3-6
"Traz a manhã serena claridade": traz claridade a manhã serena; "Removendo o temor ...": afastando o temor.
Ort.: despois (por depois). Camões não conhece outra forma.

2.4-8
"Do descuido remisso de Fernando": froixo no proceder; "... único herdeiro / ... verdadeiro": a expressão "único herdeiro" é moderada pelo outro adjectivo "verdadeiro". Remisso é latinismo.

3.3-8
"Quando em Évora a voz de ũa minina, / Ante tempo falando, ...": "Quem constrangeo a boca da filha d' Esteveannes Dereado, morador em Evora, moça pequena de oyto meses nada, que no berço homde jazia se levantou em cuu tres vezes, dizemdo com a maão alçada: Portugall, Portugall, por el Rey Dom Joham." (Discurso de Frei Pedro, da Ordem de S. Francisco, em Lisboa, no recebimento das bandeiras tomadas aos Castelhanos. Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, 2.ª parte, cap. XLVIII, p. 117, Lisboa, Imprensa Nacional, MCMLXVIII.)

4.6-7
"Do adúltero Conde e da Rainha": o adúltero Conde era o fidalgo galego João Fernandes Andeiro; "Com quem sua incontinência ...": com quem pertence para Conde.

5.5
"Quem, como Astianás, precipitado": um ou uns. D. Martinho, castelhano, bispo de Lisboa, foi precipitado da torre da Sé de Lisboa. Depois de morto, foi arrastado, nu, pela cidade. (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. XII, pp. 23 e segs., ed. do Arquivo Histórico, 1915.) Astianás, filho de Heitor e de Andrómaca. Depois da morte de Heitor e da queda de Tróia, foi reclamado pelos chefes gregos e precipitado do alto de uma torre.

5.8
"Quem nu por ruas e em pedaços feito": a abadessa do Mosteiro de S. Bento, não longe de Évora. "E assi [desvestida] a tirarom fora da See desomrradamente, e a llevarom pella rrua da Sellaria ataa Praça; e naquell logar lhe deu huũ delles huũa cuitellada pella cabeça, de que cahiu morta em terra, e desi os outros começaram de acuitellar per ella, cada huũ como lhe prazia." (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 1.ª parte, cap. LXXIX, p. 80, ed. cit.)

6.3-4
"Feitas do feroz Mário e do cruento / Sila ...": v. Plutarco nas Vidas respectivas. JMR e ALV, EN, p. CXVI, citam as Enéadas de Sabélico como fonte deste passo.

7.1-4
"Beatriz era a filha, que casada / Co Castelhano está ...": D. João I de Castela; "Se a corrompida fama ...": se o segredo divulgado.

8.1-3
"Vêm de toda a província que de um Brigo": de Castela-a-Velha, pois, segundo autores suspeitos, Castilla la Vieja vem de Castillabrigia, de um rei Brigo, bisneto de Tubal. O Poeta acrescenta "(Se foi)"; "Das terras que Fernando e que Rodrigo": JMR, EN, supõe que se trata de Fernando III (S. Fernando), que conquistou Córdova, Múrcia, Xaém e Sevilha; Rodrigo é Rui Dias de Bivar, o Cid Campeador, que conquistou Valência.

9.3-6
"Da cabeça de toda Andaluzia": Híspalis (Sevilha); "A nobre Ilha também se apercebia / Que antigamente os Tírios habitavam": ilha de Cádis (Cális). O Poeta segue aqui a tradição dos feitos de Hércules em Gadira, Eriteia, ou Cádis. Os Tírios são os Fenícios.

10.6
"Ó sórdidos Galegos, duro bando": que sentido deu Camões a 'sórdidos', ele que era de ascendência galega? Em V.79.4 temos as naus "sórdidas e imundas", em que 'sórdidas' é sinónimo de 'imundas'. Em VI.78.3, "o grão ferreiro sórdido" é também sinónimo de "imundo", em virtude do ofício. No verso 10.6 deve tratar-se da sordidez proveniente da indigência, miséria ou avareza.

11.2-7
"A gente Bizcainha, que carece / De polidas razões, ...": refere-se, por um lado, à ininteligibilidade do biscainho, por ser um dos principais dialectos da língua vasca, e, por outro, ao seu sentimento muito vivo de autonomia (v. CB, "Acerca de alguns versos de Os Lusíadas", in RL, vol. 38.º, n.os 1-4, 1940-1943, pp. 87-99); "A terra de Guipúscua e das Astúrias": a terra de Guipúscoa pertence, com a Biscaia, às províncias vascongadas. Astúrias, região do Norte da Espanha, limitada ao N. pelo mar Cantábrico, a E. pela província de Santander, ao S. pela de Leão e a O. pela de Lugo; "Armou dele ...": do ferro (de que fala no v. anterior).

12.2-5
"Como a Sansão Hebreio da guedelha". Sansão, juiz de Israel, tinha a fortaleza nos cabelos da cabeça, como diz MC. Uma cortesã, Dalila, acabou por ter a revelação deste segredo e cortou-lhos enquanto ele dormia, ficando temporariamente outro homem e à mercê dos Filisteus. Fala dele o Livro dos Juízes, XIII-XVII; "Posto que tudo pouco lhe parece": Pois que ... ; "E não porque conselho lhe falece": lhe faleça.

13.1-8
"Não falta com razões quem desconcerte": não falta quem com razões; "Negarão (como Pedro) o Deus que têm": "E Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: 'Antes que o galo cante, três vezes me negarás'. E saindo para fora chorou amargamente." ("S. Mateus", XXVI.75.)

15.1-2
"Como? Da gente ilustre Portuguesa": o Poeta tem certamente em vista o conselho de que fala Fernão Lopes no cap. XXX da Crónica de D. João I, 2.ª parte, e do qual o Condestável saiu "muito anojado", indo ao outro dia só com suas gentes a caminho de Tomar, disposto a dar batalha ao rei de Castela. O discurso é fantasiado pelo Poeta. Seus irmãos estavam já na hoste de Castela; "Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?": há-de haver quem recuse combater pela Pátria?

16.1-8
"Como? Não sois vós inda os descendentes": refere-se ao recontro da veiga de Valdevez, que teve talvez lugar nos princípios de 1128, segundo AB, em CH. Foi derrotado el-rei de Castela e diz DG, cap. VII: "Prenderam-lhe na batalha sete Condes e outros muitos cavaleiros, e mataram-lhe muita gente." (Crónica de D. Afonso Henriques.)

18.7
"Atai as mãos a vosso vão receio": ficai imóveis, presos do vosso medo.

19.3-5
"Defenderei da força dura e infesta": infesta (inimiga) é latinismo; "Em virtude do Rei, da pátria mesta": mesta (latinismo), abatida, mergulhada em aflição.
Ort.: sojugada (por subjugada).

20.1-2
"Bem como entre os mancebos recolhidos / Em Canúsio, relíquias sós de Canas": Em Canúsio (Canusium, cidade da Apúlia, hoje Canosa da Apúlia) Públio Cornélio Cipião, Africanus major, então (216 a. C.) de cerca de 19 anos, demoveu os combatentes derrotados de deporem as armas (v. T. Lívio, XXII.LIII). Derrotou Aníbal em Zama (202).

21.4-5
"... lhe ...": por lhes; "Nos animais cavalgam de Neptuno": v. III.51.3-4.

22.3-4
"Uns as armas alimpam e renovam, / Que a ferrugem da paz gastadas tinha": o particípio concorda com armas. Aproximar aqueles vv. de Virgílio, VII.623-640.

23.1-8
"Com toda esta lustrosa companhia / Joane forte sai da fresca Abrantes": o Poeta simplifica muito a acção. O exército português saiu de Abrantes, passou a Tomar, de Tomar a Ourém e Porto de Mós; "Os primeiros armígeros regia": os primeiros homens de armas, a vanguarda, regida por Nuno Álvares (v. est. seg.). Armígeros é latinismo; "Orientais exércitos sem conto / Com que passava Xerxes o Helesponto": em 480 a. C. Xerxes passava o Helesponto numa ponte de barcas à frente de "exércitos sem conto" para atacar os Gregos.

24.3
"Como já o fero Huno o foi primeiro": refere-se a Átila, rei dos Hunos (432-453), que trouxe a assolação à Europa até ser derrotado nos chamados "Campos Cataláunicos", não longe de Châlons-sur-Marne (451), por Aécio (general romano), Meroveu (rei franco) e Teodorico (rei dos Visigodos de Espanha), que morreu na batalha". V. III.100.1-8.

25-1-3
"E da outra ala, ... / Antão Vasques de Almada é capitão, / Que despois foi de Abranches nobre Conde": lapso do Poeta. Quem teve o título de Conde de Abranches (na Normandia) foi Álvaro Vaz de Almada, amigo do infante D. Pedro, que morreu em Alfarrobeira. Segundo Fernão Lopes, o comandante da ala esquerda, "da sestra mão", foi Antão Vasques, que mais tarde entrará por Castela, recolhendo grande despojo (Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. LIX, p. 144).

26-1-7
"Estavam pelos muros, temerosas / E de um alegre medo quási frias": aparentemente, o Poeta faz assistir as abrantinas "mães, irmãs, damas e esposas" ao prélio e deixa indeterminado o verdadeiro local do combate. Alegre medo, medo cheio de esperança na vitória; "Já chegam as esquadras belicosas / Defronte das imigas companhias, / Que com grita grandíssima os recebem;": silepse. O Poeta tem no seu pensamento os guerreiros das esquadras.

27.3-8
"Alférezes volteiam as bandeiras": alférezes, plural antigo de alferes; "Era no seco tempo que nas eiras": Ceres, filha de Saturno e de Cíbele, deusa da agricultura, identificada mais tarde com a Deméter dos Gregos. Astreia, antigo nome da constelação da Virgem. O Sol entrava no signo da Virgem a 14 de Agosto de 1385; na imagem ou constelação entra mais tarde. Na Chronographia, de Jerónimo Chaves, lê-se: "Entra el sol en el signo de Virgo comunmente a los quatorze de Agosto, comiença a entrar en la imagen al fin de Agosto." (Cit. por LPS, AL, p. 90.)

28.3-8
"Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana": identificam Artabro actualmente com o cabo Ortegal, no extremo noroeste da Galiza. A trombeta é ouvida do extremo noroeste da Espanha ao extremo sueste: "Ouviu[-o] o Douro e a terra Transtagana": v. III.62.1-2; "E as mães, que o som terríbil escuitaram, / Aos peitos ...": aproxime de Virgílio, E, VII.518: "... et trepidae matres pressere ad pectora natos." Terríbil é latinismo.
Ort.: escuitaram (por escutaram).

29.1-8
"O sentido desta estância é muito obscuro e tem suscitado várias interpretações. Para nós o sentido é este: "Quantos rostos ali se vêm sem cor, / Pois ao coração acode o sangue amigo! Que, nos perigos grandes, o temor / É maior muitas vezes que o perigo. / E se o temor não é maior do que o perigo, aparenta-o; mas o furor / De ofender ou vencer o duro imigo / Faz não sentir que é perda grande e rara / [a] Dos membros corporais, da vida cara."
Ort.: Imigo, forma arcaica (por inimigo).

30.2
"De ambas partes se move a primeira ala": os Castelhanos "moveram-se" primeiro, segundo Fernão Lopes: "Emtom, dando as trombetas muy rijamente, com grandes apupos e allarydos braadando todos: A elhos! A elhos!, começou a desaparecer o campo so a grande espessura delles." (Crónica de D. João I, 2.ª parte, p. 97); "Os portugueses, como os virom aballar, começaram avyvar os coraçooens pera os receber, e com esforço damdo aas trombetas, moverom passo e passo em sua boõa hordenança, o Condestabre ante a sua bamdeira ..." (Id., ibid.)

31
Ort.: debaxo (por debaixo); recrecem (por recrescem).

32.1-8
"Eis ali seus irmãos contra ele vão": D. Pedro Álvares Pereira, mestre de Calatrava, e Diogo Álvares; "Destes arrenegados muitos são / No primeiro esquadrão, ...": "os portugueses vinham todos nesta aaz deanteira ... assy como o conde dom Joham Afomsso Tello ...,.e dom Pedralvarez e Diegoalvarez seu irmão, e Gomçallo Vaasquez d' Azevedo e Alvaro Gomçallvez seu filho, e Garcia Rodriguez Taborda, alcayde de Leyrea, Vaasquo Perez de Camões, Joham Gonçallvez, alcaide d' Obidos e outros." (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. XXXVIII, p. 87); "Quais nas guerras civis de Júlio [e] Magno": de Júlio César e Pompeu, o Magno. O Poeta conheceu o poema De bello civili, de Lucano, e, naturalmente, As Vidas (de Pompeu e de César), de Plutarco. Sobre a morte de Magno, v. IV.62.3-8.

33.1
"Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano, / Catilina, ...": Sertório, general romano, falecido em 72 a. C. Alcançara na Península grande prestígio, onde exercera os cargos de tribuno militar e propretor da Espanha citerior. Era partidário de Mário e adversário de Sila. Comandou os Lusitanos e opôs-se aos partidários de Sila. Foi assassinado num banquete por Perpena, seu capitão, no já referido ano de 72 (v. Plutarco, Sertorius). Márcio Coriolano, general romano, que viveu no século V a. C. Vencedor de Coríolos (no Lácio), capital dos Volscos, em 493. Condenado ao exílio, refugiou-se junto dos Volscos e levou-os à guerra contra Roma. Resistiu aos pedidos do Senado para depor as armas contra os Romanos. Só acedeu aos pedidos de sua mãe, Vetúria, e de sua esposa, Volúmnia (T. Lívio, II.XL). Lúcio Sérgio Catilina, patrício romano (por 109-63 a. C.), partidário de Sila, adversário do Senado. Ficaram célebres as quatro orações proferidas por Cícero contra Catilina, em 63 a. C. (v. L. Catilinam, "Orationes IV"). Salústio escreveu De conjuratione Catilinae. Nobre Coriolano: célebre.

33.4-5
"... com profano / Coração ...: profano (latinismo) no sentido de ímpio; "Se lá no reino escuro de Sumano": Sumano, deus infernal, que alguns assimilam a Plutão.

34.1-6
"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros": a az de Nuno Álvares foi rota em primeiro lugar ante a pressão do inimigo. "E seemdo a az grossa daquella maneira e a dos portugueses pequena e simgella, e nom a podemdo soffrer, foy rota per força a ssua avamguarda, e emtrada poderosamente dos emmigos." (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. XLIII, p. 98); "Que os campos vão correr de Tutuão": Tetuão, cidade marroquina, tomada por D. Duarte de Meneses.

35.4
Ort.: recrecem (por recrescem).

36.1-8
"Sentiu Joane a afronta que passava / Nuno, ...": "El-Rey, quando vyo a avanguarda rota e o Conde em tamanha pressa, com gramde cuydado e todos com elle abalou rijamente com sua bamdeira, dizemdo altas vozes com gram esforço: Avamte, senhores, avamte! Sam Jorge, Sam Jorge! Portugall, Portugall, ca eu som el-Rey!" (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. XLII, p. 99); "O pastor de Massília ...": Massília, terra dos Massilos, povo vizinho da Numídia.

37.2
"Os montes Sete Irmãos atroa e abala": MC escreveu: "Na Mauritania, q[~] atras chamey Massilia, estão sete montes, dos quaes Pomponio Mella diz: Ex his tamen, quae commemorare non piget, montes sunt alti, qui cõtinenter, & quasi de industria in ordinem expositi, ob numerum septem, ob similitudinem fratres vocantur." Na ed. de 1748 do De Situ Orbis de Pompónio Mella a transcrição termina: "ob similitudinem Fratres nuncunpantur".

39.4-5
"Perigos vencerá do Márcio jogo": jogo de Marte – a guerra; "Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente": várias edições, desde 1597, substituíram no texto "fogo" por "sangue". ED adoptou "sangue". JMR, na EN, nem sequer alude ao problema e põe "fogo". CB mantém "fogo" e, como MC, entende que está em sentido figurado e é o "honroso fogo" do v. 2. SJ mantém "fogo", assim como FC. MR mudou para "sangue". MM mantém "fogo". A expressão é audaciosa: o ferro não tinge o sangue, mas o fogo que o anima.

40.1-6
"A muitos mandam ver o Estígio lago": lagoa do Inferno (Estige); "O Mestre morre ali de Santiago": não há notícia de o mestre de Santiago ter estado em Aljubarrota; "Outro Mestre cruel de Calatrava". No v. 7 o Poeta diz que morrem "os Pereiras ... arrenegados"; mas um deles, Pedro Álvares Pereira, é que era o mestre de Calatrava. Morreu na batalha. Diogo Pereira foi feito prisioneiro e, depois, deixado por D. João I à guarda de Egas Coelho. Mas "villaãos alguuns vemdo-lhe as armas de Castella", mataram-no, sem mais razões (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. XLV, p. 107).

41.1-8
Muitos também do vulgo vil, sem nome": no sentido de não nobre; "Vão, e também dos nobres, ao Profundo, / Onde o trifauce Cão ...": o Profundo é o Inferno, o Cão de três fauces é o Cérbero, guarda do Inferno; "A sublime bandeira Castelhana / Foi derribada ...": "E ssendo a batalha cada vez mayor e muy feryda danbas partes, prougue a Deus que a bandeira de Castella foy derybada ..." (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. XLII, p. 99.)

43.1-7
"O campo vai deixando ao vencedor": "El-Rey de Castella oolhando a batalha e veendo que Fortuna de todo em todo era favoravell aos portugueses ... trigou-sse como quem nom sente door por logo partir ante que mais visse como sse perdia a batalha de todo." (Fernão Lopes, Crónica de D. João I, 2.ª parte, cap. XLIII, p. 99); "Lhe dá, não pés, mas asas ...": por lhes (os que ficaram); "Encobrem no profundo peito ...": no fundo do peito; e triste nojo": dor, pesar.

44.6
"... aventura às penas do profundo": como em 41.1-8.

45.8
"Pera as terras se passa Transtaganas": v. III.62.1-2.
Ort.: despois (por depois).

46.3-7
"Porque a terra dos Vândalos, ...": a Andaluzia; "Já de Sevilha a Bética bandeira, / E de vários senhores, num momento / Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa": derriba concorda com Bética bandeira e sem ter defesa pertence igualmente para Bética bandeira.

47.6-7
"Dar os Reis inimigos por maridos / Às duas Ilustríssimsa Inglesas": as duas filhas do duque de Lencastre, Filipa e Catarina, casaram, a primeira, com o rei de Portugal e, a segunda, com o rei de Castela.

48.2
Ort.: imigo (por inimigo).

49.1-8
"Eis mil nadantes aves, ..." : numerosa frota; "... pelo argento / Da furiosa Tétis inquieta": pelo oceano agitado; "... as pandas asas ...": as inchadas velas; "Pera onde Alcides pôs a extrema meta": Alcides (Hércules) – para o estreito de Gibraltar; "O monte Abila e o nobre fundamento / De Ceita ...": v. III.77.3-8. Ceuta foi tomada em 21 de Agosto de 1385; "... e segura toda a Espanha / Da Juliana, má e desleal manha": o conde Julião era governador cristão de Ceuta nos primeiros anos do século VIII. Julião era partidário de Vitiza (rei visigodo da Península). Não se tratando de monarquia hereditária, os nobres visigodos não reconheceram o filho como sucessor de Vitiza e elegeram Rodrigo. Por este motivo, o conde Julião solicitou o apoio de Muça Ibne Noçáir, governador da África muçulmana, e abriu-lhe as portas de Ceuta para uma expedição à Península.

50.1-8
"Não consentiu a morte ...": D. João I faleceu a 14 de Agosto de 1433, aniversário da Batalha de Aljubarrota; "Ínclita geração, altos Infantes": o Poeta refere-se em especial aos filhos de D. João I –  D. Duarte, D. Pedro, D. Henrique e D. Fernando.

52.1
"Viu ser cativo o santo irmão Fernando": a desastrada expedição a Tânger em 1437 trouxe como consequência o infante D. Fernando ficar como refém até que se entregasse Tânger – no que nunca consentiu o infante D. Henrique. D. Fernando foi chamado o "Infante Santo". Morreu em Fez, minado de desgostos e de torturas (5 de Junho de 1448).
Ort.: púbrico, na edição princeps (por público).

53.1-2
"Codro, por que o inimigo não vencesse": Codro, último rei de Atenas, evitou o triunfo dos Dórios quando estes invadiram a Ática, entrando, disfarçado, no campo inimigo e deixando-se matar. Desta forma cumpriu-se o oráculo que predizia que ficaria vencedor o que não matasse o rei; "Régulo por que a pátria não perdesse": Régulo, prisioneiro em Cartago, tendo sido mandado a Roma para que se fizesse um tratado de paz ou se permutassem os prisioneiros, aconselhou o Senado a não aceitar nenhuma das propostas. De regresso a Cartago foi morto (T. Lívio, sumário do liv. XVIII). Horácio consagrou a Régulo a Ode V do liv. III, e Cícero, um trecho do De Officiis, III.27.100.

53.7
"Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto": hoje dir-se-ia: nem Codro, nem Cúrcio. MC diz que, segundo escreve Tito Lívio na Primeira Década, ao tempo que os Romanos tinham guerra com os Hérnicos, "apareceo subitamente na praça de Roma hua muy grande abertura, a qual os Romanos nunca poderão serrar, antes quanto mais elles mais o procuravão tanto ella mais se abria. Consultado o Oraculo, respondeo, que aquella abertura queria dentro em si aquillo, com que Roma era mais poderosa. E como neste caso variassem os Romanos, & nenhum soubesse dar no entendimento da resposta, Curcio os reprendeo muy asperamente, notandoos de fraco juizo, & dizendo que homens & armas fazião a republica Romana muy poderosa, & que assi se avião de entender as palavras do Oraculo: pelo que se armou, & posto a cavallo, se lançou muyto alvoroçado dentro naquella abertura, a qual logo se serrou" (v. T. Lívio, VII.VI).

53.8
"Nem os Décios leais, fizerão tanto": Décios Mus, nome de três ilustres romanos que se sacrificaram pela pátria: o pai, em Véseris (rio de Campânia, ao pé do Vesúvio), numa batalha contra os Latinos (T. Lívio, VIII.IX), em 340 a. C.; o filho, em Sentino (cidade da Úmbria), contra os Gauleses (T. Lívio, X.XXVIII), em 295, e o neto, em Ásculo, cidade do Piceno, contra Pirro, em 279.

54.1-2
"Mas Afonso, do Reino único herdeiro": D. Afonso V, na sua qualidade de primogénito; "Nome em armas ditoso em nossa Hespéria": v. II.108.6. Impossíbil e terríbil são latinismos.

55.1-2
"Este pôde colher as maçãs de ouro": este é D. Afonso V. Trata-se das maçãs do jardim das Hespéridas. As Hespéridas habitavam no extremo ocidente, não longe da ilha dos Bem-Aventurados, à beira do Oceano. Acabaram por situá-las junto do monte Atlas. As maçãs de ouro, aqui, designam Marrocos; "Que somente o Tiríntio colher pôde". O Tiríntio é Hércules, por seu avô Alceu, rei de Tirinto. O seu pai putativo, Anfitrião, era rei de Tebas, pelo que Hércules é também chamado o Tebano. Ovídio e Virgílio chamam Tiríntio a Hércules.

56.2-8
"Os muros abaxaram de diamante": duros como o diamante; "Mais afinando a fama Portuguesa": mais apurando.
Ort.: abaxaram (por abaixaram); dinas (por dignas).

57.3-7
"Vai cometer Fernando de Aragão": D. Afonso V, pretendente ao trono de Castela por parte de sua sobrinha, D. Joana, teve como competidor Fernando de Aragão. D. Afonso V para defender os direitos da sobrinha entrou em Castela em Maio de 1475; "Desde Cáliz ao alto Perineo": desde Cádis ao alto Pireneu.

58.1
"Não quis ficar nos Reinos occioso": o príncipe D. João (futuro D. João II) foi encontrar-se em Touro com o pai (em Janeiro de 1476).
Ort.: occioso, na edição princeps, ou, como o Poeta escreve em outros lugares, oucioso (por ocioso).

59-4-6
"Todo um dia ficou no campo inteiro": aliás, toda uma noite; "Destarte foi vencido Octaviano, / E António vencedor, ...": o Poeta compara a sorte de D. Afonso V e do Príncipe D. João II (um vencido, o outro vencedor) à sorte de Marco António e de Octaviano, que em 42 a. C. venceram os assassinos de Júlio César, Bruto e Cássio, na batalha de Filipos, tendo Octaviano sido infeliz (v. Plutarco, Brutus, XXXVIII-LIII).

60.7-8
"... que foi buscar da roxa Aurora / Os términos, que eu vou buscando agora": foi buscar a meta oriental. Nas estâncias seguintes o Poeta ocupa-se das viagens de Pêro da Covilhã e de Afonso de Paiva.
Ort.: despois (por depois); apousentou (por aposentou).

61.1
"Manda seus mensageiros ...": a fantasia do Poeta alterou a história, incluindo no itinerário a França. Despediram-se do rei em Santarém, em 7 de Maio de 1487. Seguindo por Valência, chegaram a Barcelona em 14 de Junho e daí a Nápoles, que alcançaram em 24 do mesmo mês, donde passaram à ilha de Rodes. Fazendo de mercadores, passaram à Alexandria, no Egipto. Como mercadores seguiram para o Cairo e daí para Tor. Embarcados em Tor, foram pelo mar Vermelho (ou Roxo) até Suaquém, na costa africana, e daí para Adém. Aqui separaram-se: Afonso de Paiva para a Etiópia e Pêro da Covilhã para a Índia. Afonso de Paiva morreu, provavelmente, no Cairo. Depois de várias viagens e explorações, Pêro da Covilhã, tendo sabido no Cairo da morte do seu companheiro, resolveu entrar na Abissínia, ou Etiópia-a-Alta, donde não mais o deixaram sair.

61.4-8
"Onde já foi Parténope enterrada": Parténope foi uma das sereias que, quando Ulisses se lhes escapou, se lançaram ao mar; o seu corpo deu à costa no local onde, mais tarde, foi construída a cidade de Nápoles. "Litore autem Neapolis Chalcidensium et ipsa, Parthenope a tumulo Sirenis appellata." (Plínio, III.V.62); "Co senhorio de ínclitos Hispanos": a partir de Afonso V, de Aragão (Afonso I, de Nápoles). No tempo de Camões, Nápoles pertencia à monarquia espanhola.

62.3-8
"E dali às ribeiras altas chegam / Que com morte de Magno são famosas": para pedir asilo a Ptolemeu, rei do Egipto, Pompeu dirigiu-se a Pelúsio (ou Pelusa), hoje Tiné, cidade do Egipto, nas vizinhanças de Porto Saida. Os nossos viajantes foram para a Alexandria e daí ao Cairo; "Vão a Mênfis, ...: o Poeta quis provavelmente identificar o Cairo; "... e às terras que se regam / Das enchentes Nilóticas undosas": as terras do Nilo são regadas por enchentes revoltas (undosas). "Sobem à Etiópia, sobre Egipto, / Que de Cristo lá guarda o santo rito": só Pêro da Covilhã subiu à Abissínia; "que lá guarda o santo rito": o culto monofisista.

63.1-8
"Passam também as ondas Eritreias": o mar Vermelho (ou Roxo); "Que o povo de Israel sem nau passou": é a célebre travessia do mar Vermelho por Moisés e pelos Hebreus, que deixaram o Egipto em direcção ao monte Sinai; "Ficam-lhe atrás as serras Nabateias": "deinde Nabataei oppidum incolunt Petram nomine in convalle, paulo minus II p. amplitudinis, circumdatum montibus inaccessis, amne interfluente" (Plínio, VI.XXXII.144); "Que o filho de Ismael co nome ornou": Nabateias, de Nabath; "As costas odoríferas Sabeias": a Sabeia é parte da Arábia Feliz: "principalia ergo in illa tus atque murra" (Plínio, XII.XXIX.52); "Que a mãe do belo Adónis tanto honrou": Cíniras, rei de Chipre, teve uma filha que quis praticar incesto com ele. Depois de algumas noites descobriu-se o crime. A jovem foge e encontra deuses propícios, que a transformam na árvore da mirra. Feita árvore, gera Adónis, fruto do seu crime (v. Ov., M, X.491 e segs.); "Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta": JMR, in BCL, XIII, p. 697, nota, queria que se lesse Petrêa, com acento medieval 4-7-10.

64.1-8
"Entram no Estreito Pérsico, onde dura / Da confusa Babel inda a memória": entram no Golfo Pérsico e o Poeta lembra-se da Torre de Babel e de Babilónia; "Ali co Tigre o Eufrates se mistura": os dois rios reúnem-se na Mesopotâmia e formam juntos o Chate Alárabe, que desagua no Golfo Pérsico; "Que as fontes onde nascem têm por glória": o Paraíso (cf. III.72.7-8); "Onde não se atreveu passar Trajano": v. nosso comentário a I.3.3.

65.1-2
"Viram gentes incógnitas e estranhas / Da Índia, da Carmânia e Gedrosia": Gedrósia, província da Pérsia, entre a Carmânia e a Índia. Carmânia, também província da Pérsia.
Ort.: produze (por produz).

67.6-8
"... no tempo que a luz clara / Foge, e as estrelas nítidas que saem / A repouso convidam quando caem": "sair, falando das estrelas, é surgir no horizonte, começar a subir, nascer, enfim. As estrelas que nascem de dia não se vêem; só as que nascem de noite saem nítidas. O adjectivo nítidas é importante, porque indica que o Poeta se refere a estrelas de nascimento crónico. Define-se, pois, nos últimos versos, a parte da noite em que as estrelas, que já de noite nasceram, convidam a repouso, pela sua queda do lado ocidental do meridiano" (LPS, AL, p. 37). AFGV, a p. 36 do fasc. 2.º de NC, afirma: «'As estrelas nítidas que saem' podem ser as estrelas de nascimento helíaco vespertino. Elas aparecem a ocidente, depois do sol-posto e, pouco depois caem, isto é, têm o seu ocaso, desaparecendo no horizonte ocidental.»

68.8
"Morfeu em várias formas lhe aparece": Morfeu é um dos mil filhos do Sono. A sua função consiste em tomar a forma de seres humanos e de se mostrar aos homens adormecidos durante os seus sonhos. Possui grandes asas rápidas e silenciosas, que o levam a toda parte.

69.1-6
"Aqui se lhe apresenta que subia / Tão alto que tocava a prima Esfera": a esfera da Lua; "Despois que os olhos longos estendera": estendera ao largo os olhos para ver ao longe o objecto desejado.
Ort.: nace e nacerem (por nasce e nascerem); despois (por depois); longincos (por longínquos).

70.1-6
"Aves agrestes, feras e alimárias": aves agrestes, feras e outros animais; "Estas duras montanhas, adversárias / De mais conversação, ...": de outra frequentação.

71.5-8
"Das pontas dos cabelos lhe saíam": lhe, por lhes; "Barba hirsuta, intonsa, ...": hirsuta (eriçada) e intonsa (não aparada) são latinismos.
Ort.: aspeito (por aspecto).

72.7-8
"Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa / Vai buscar os abraços de Aretusa": Alfeu, rio do Peloponeso; Arcádia, planalto do Peloponeso; Siracusa, cidade principal da Sicília. "Mas da observação d' este rio & d' outros semelhantes, nos não devemos muito maravilhar do q[~] disserã os antigos acerca do rio Alpheo, o qual despois q[~] na provincia do Pelopõneso passa por a cidade de Pisa & entra no Mediterraneo, screvẽ – que nã mixtura suas agoas cõ as salgadas, mas q[~] por baixo d'este mar se vai meter na fonte Arethusa, jũto da cidade Syracusa chamada oje Saragoça em Sicilia, & q saindo d' esta fonte entra no mar." (GB, Ch., fl. 12 e v.º) V. Ov., M, V.572-642.

74.1-4
"... que na terra / Celeste tenho o berço verdadeiro": no paraíso terreal; "Estoutro é o Indo, Rei que, nesta serra / Que vês ...": ED diz que Camões chama "Rei" ao Indo por ser o rio da Índia de mais longo curso. JMR, BCL, 13, p. 688, pensa que "Rei" é um vocativo, que o o do Indo absorveu o o do vocativo (teoria que lhe é particularmente favorita) e que é como se estivesse escrito: "Estoutro he o Indo, ó Rey". Na edição princeps está: "Estoutro he o Indo Rey".

75.5-6
"Estendeu nisto Febo o claro manto": o Sol rompeu; "Pelo escuro Hemispério somnolento": AP e PAP, no seu DL, afirmam que no poema se grafa de quatro maneiras a palavra "Hemisfério": "Hemispherio" em I.8, "Emispherio" em I.38 e I.65, "Emisperio" em IV.75 e VI.38 e "Hemisperio" em V.14 (e, acrescente-se, em X.93). Camões talvez fosse o primeiro que, em português, tivesse escrito o vocábulo com forma semelhante à latina e à grega. "Hemisperio" lê-se no Esmeraldo e "Imisperyo" na Crónica da Guiné.
Ort.: desparecem (por desaparecem, por causa da medida do verso); Emanuel, do latim Emmanuel, nome do Messias.

76.2-8
"E propõe-lhe as figuras da visão": refere, apresenta; "Determinam o náutico aparelho": ordenam que as naus se aparelhem; "A buscar novos climas, novos ares": «Portugal» – como escreveu LPS –  "estendia-se na Europa sobre o clima de Roma ao norte de Lisboa, e ao sul sobre o clima de Rodes" (v. II.109.1-8). As navegações dos Portugueses ao longo da costa africana foram, porém, recuando aquele limite, como se diz em IV.76.8.

77.3-4
Que sempre grandes coisas deste jeito, / Pres[s]ago, o coração me prometia": talvez o pensamento de Virgílio em E, IX.186: "Aut pugnam aut aliquid iamdudum invadere magnum / mens agitat mihi ..."

80.1-8
"Imaginai tamanhas aventuras / Quais Euristeu a Alcides inventava": Euristeu, rei de Micenas. Alcides é o primeiro nome de Hércules (v. III.137.8). Nos vv. 3 a 6 recordam-se algumas façanhas de Hércules: a morte do leão Cleoneu (de Cleona, nome de lugar); as "Harpias duras": as aves monstruosas do lago Estinfalo, que Camões confundiu neste lugar com as "Harpias"; a captura do porco monstruoso que vivia no Erimanto; "a Hidra brava", ou Hidra de Lerna, monstro de várias cabeças, decepadas por Hércules a poder de largos esforços; "Decer, enfim, às sombras vãs e escuras / Onde os campos de Dite a Estige lava": Dis Pater ou Ditis foi desde muito cedo identificado a Plutão. Styx, rio dos Infernos, é também feminino em latim; "Por vós, ó Rei, o esprito e carne é pronta": concordância do verbo com um dos elementos do sujeito.
Ort.: decer (por descer).

81.2
"E com razões ...": e com palavras.

82.3
"Ambos são de valia e de conselho": ambos são de merecimento e bom conselho.
Ort.: crece (por cresce).

83.5-6
"Assi foram os Mínias ajuntados"; este verso e os seguintes aproximam Os Lusíadas da Argonautica, de Valério Flacco (v. sobre este ponto "Os Lusíadas e o Tema das Argonáuticas", por SJ, in Ocidente, vol. XL, 1951, pp. 261-284). Camões leu o poema de Valério Flacco, Argonautica, onde os Argonautas são os Mínias, povo da Grécia continental, que tinha fundado um pequeno império a noroeste da Beócia. Vencidos pelos Beócios, depois da guerra de Tróia, os Mínias ficaram na sua dependência. Mínias era também o rei de Orcómeno, na Beócia; "Pera que o Véu dourado combatessem": o Poeta chama Véu ao Velo. A conquista do Velo de oiro foi narrada por Apolónio Ródio, serviu para um episódio a Píndaro e fez o assunto da Medeia, de Eurípedes. Como já dissemos, Valério Flacco também tratou do assunto.

83.7
"Na fatídica nau que ousou primeira": fatídica no sentido latino, que prediz o futuro. A nau Argo foi construída num porto da Tessália com a ajuda da deusa Atena. A madeira proveio do Pélion, com excepção da peça de proa, trazida pela deusa, e que era um pedaço de carvalho sagrado de Dodona. Ela mesma a talhara e lhe dera o dom da fala, além do poder de profetizar; "Tentar o mar Euxínio, aventureira": dirigiram-se à Cólquida, no mar Euxino (ou mar Negro).

84.1-6
Pela ordem directa os quatro primeiros versos deveriam ter a seguinte redacção: "E já no porto da ínclita Ulisseia, / (Onde o doce Tejo mistura o licor e branca areia / Co salgado Neptuno) / Cum alvoroço nobre e cum desejo / As naus prestes estão ..."; Ulisseia, cidade de Ulisses, Lisboa; o salgado Neptuno, o Oceano; as naus: a S. Gabriel, a S. Rafael, a Bérrio e uma de mantimentos; "... juvenil despejo": juvenil desembaraço.
Na edição princeps: "a toda parte", e não como, por lapso, saiu no texto.

85.7-8
"Elas prometem, vendo os mares largos, / De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos": a nau Argo foi posta entre as constelações por Minerva.

86.5-8
"... que a etérea Corte / Sustenta ...": a corte celeste; "E que nossos começos aspirasse": favorecesse.

87.1-8
"Partimo-nos assi do santo templo": de Nossa Senhora de Belém; "Que o nome tem da terra, ...": Jesus nasceu em Belém; "... se contemplo": se contemplo na memória, se recordo; "Como fui ...": quando fui; "Que apenas nos meus olhos ponho o freio": Que, anacoluto. Com dificuldade retenho as lágrimas. Cf. Ov., Tristia, I.III.3-4:

cum repeto noctem, qua tot mibi cara reliqui,
labitur ex oculis nunc quoque gutta meis.

88.1-4
"A gente da cidade, ... /... / ... concorria, / Saüdosos na vista e descontentes": concordância de saüdosos e descontentes com gente; "Uns por amigos, ...": uns por serem amigos.

89
Ort.: piadoso (por piedoso); acrecentavam (por acrescentavam).

90.5
"Porque me deixas, mísera e mesquinha?": v. III.118.5-8.
Ort.: emparo (por amparo); pexes (por peixes). O Poeta nunca escreveu de outro modo; amaro é latinismo.

91.3
"Porque is ...": ides.

92.7-8
"A branca areia as lágrimas banhavam": as lágrimas banhavam a branca areia; "Que em multidão com elas se igualavam": Com elas, com as areias, e não com a areia.

93.1-5
"Nós outros, ... /... / Determinei de assi nos embarcarmos": determinei que nós outros assi nos embarcássemos.

94.1-8
"Mas um velho d' aspeito venerando": desta estância até final do canto é o episódio do Velho do Restelo, eloquente, filosófico e também político. Pela boca do Velho, Camões manifesta a sua predilecção pela política africana; "... experto peito": peito experiente.
Ort.: aspeito (por aspecto).

95.3
"Ó fraudulento gosto ...": gosto enganoso.

96.5-8
"Na edição princeps o Poeta escreveu: "Chaman-te ilustre", "chaman-te subida", "chaman-te fama", por causa da enclítica; "Nomes com quem se o povo néscio engana!": o pronome quem empregava-se indiferentemente em relação a pessoas e a coisas: néscio, ignorante.
Ort.: desemparos (por desamparos); dina (por digna).

97.4-6
"Debaixo dalgum nome preminente?": preeminente; "Que promessas de reinos e de minas / D' ouro, que lhe farás ... ": este último que é pleonástico.

98.1-7
"Mas, ó tu, geração daquele insano": Adão; "... do Reino soberano": do Paraíso; "Da quieta e da simpres inocência, / Idade d' ouro, ... ": sobre as quatro idades, v. Ov., M, I.90-150.
Ort.: simpres (por simples).

99.7-8
"... pois que já / Temeu tanto perdê-la Quem a dá": v. "S. Mateus", XXVI.39: "E adiantando-se um pouco, se prostrou com o rosto em terra, orando e dizendo: – Pai meu, se é possível passe de mim este cálix ..."

100.1
"Não tens junto contigo o Ismaelita": refere-se aos muçulmanos da África do Norte.

101.4
"Se enfraqueça e se vá deitando a longe": se vá deitando a perder. Longe rima com longe do segundo verso.

101.7
"... com larga cópia": com grande abundância.

102.3-5
"Profundo (Inferno) rima com profundo (adjectivo).

103.1
"Trouxe o filho de Jápeto do Céu / O fogo que ajuntou ao peito humano": sobre o roubo do fogo por Prometeu, filho de Jápeto, v. Hesíodo, Theogonia, vv. 554-556. A expressão do Poeta está mais próxima de Horácio, O, I.III.

104.1-5
"Não cometera o moço miserando / O carro alto do pai ...": Fáeton, filho de Hélio (o Sol), foi autorizado por seu pai a guiar o carro do Sol, mas esteve a pontos de, por inexperiência, abrasar o Universo. Zeus (Júpiter), irritado, fulminou-o e precipitou-o no Erídano (o rio Pó); "... nem o ar vazio / O grande arquitector co filho, dando / Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio": Dédalo, arquitecto grego que construiu o labirinto de Creta, no qual foi encerrado o Minotauro. Dédalo também lá ficou aprisionado por ordem de Minos, mas fugiu, fazendo umas asas de penas e de cera. Ícaro fugiu do labirinto de Creta com o pai com asas ligadas com cera. Aproximando-se demasiado do Sol, a cera derreteu-se, as asas soltaram-se e Ícaro foi cair no mar Egeu, perto da ilha Icária (no mar Icário); "Nenhum cometimento alto e nefando": nefando no sentido latino de nefandus, abominável.