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Canto I
1
AS armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;
2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.
5
Dai-me ũa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.
6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande;
7
Vós, tenro e novo ramo florecente
De ũa árvore, de Cristo mais amada
Que nenhua nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera si na Cruz tomou);
8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio:
9
Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.
10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quási eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.
11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando, inda que fora verdadeiro.
12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
A cítara par' eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares dar-vos quero
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.
13
Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou, com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.
14
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Se fizeram por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.
15
E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
16
Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver, o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tétis todo o cerúleo senhorio
Tem pera vós por dote aparelhado,
Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos pera genro.
17
Em vós se vêm, da Olímpica morada,
Dos dous avós as almas cá famosas;
Ũa, na paz angélica dourada,
Outra, pelas batalhas sanguinosas.
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos têm lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.
18
Mas, enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.
19
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,
20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vêm pela Via Láctea juntamente,
Convocados, da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.
21
Deixam dos sete Céus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que só co pensamento
Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.
Ali se acharam juntos num momento
Os que habitam o Arcturo congelado
E os que o Austro têm e as partes onde
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.
22
Estava o Padre ali, sublime e dino,
Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano;
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com ũa coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.
23
Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses, todos assentados
Como a Razão e a Ordem concertavam
(Precedem os antigos, mais honrados,
Mais abaixo os menores se assentavam);
Quando Júpiter alto, assi dizendo,
Cum tom de voz começa grave e horrendo:
24
– «Eternos moradores do luzente,
Estelífero Pólo e claro Assento:
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos Fados grandes certo intento
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
25
«Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
Cum poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do Céu sereno:
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.
26
«Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que co a gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra Romana, tanto se afamaram;
Também deixo a memória que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que, peregrino,
Fingiu na cerva espírito divino.
27
«Agora vedes bem que, cometendo
O duvidoso mar num lenho leve,
Por vias nunca usadas, não temendo
de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve:
Que, havendo tanto já que as partes vendo
Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e perfia
A ver os berços onde nasce o dia.
28
«Prometido lhe está do Fado eterno,
Cuja alta lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar que vê do Sol a roxa entrada.
Nas águas têm passado o duro Inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra que deseja.
29
«E porque, como vistes, têm passados
Na viagem tão ásperos perigos,
Tantos climas e céus exprimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
Que sejam, determino, agasalhados
Nesta costa Africana como amigos;
E, tendo guarnecido a lassa frota,
Tornarão a seguir sua longa rota.»
30
Estas palavras Júpiter dizia,
Quando os Deuses, por ordem respondendo,
Na sentença um do outro diferia,
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo
Que esquecerão seus feitos no Oriente
Se lá passar a Lusitana gente.
31
Ouvido tinha aos Fados que viria
Ũa gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da Índia tudo quanto Dóris banha,
E com novas vitórias venceria
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória
De que Nisa celebra inda a memória.
32
Vê que já teve o Indo sojugado
E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
Por vencedor da Índia ser cantado
De quantos bebem a água de Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão célebre nome em negro vaso
D' água do esquecimento, se lá chegam
Os fortes Portugueses que navegam.
33
Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana
Por quantas qualidades via nela
Da antiga, tão amada, sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.
34
Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que há-de ser celebrada a clara Deia
Onde a gente belígera se estende.
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,
E o outro, pelas honras que pretende,
Debatem, e na perfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.
35
Qual Austro fero ou Bóreas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura
Com impeto e braveza desmedida,
Brama toda montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto, levantado
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.
36
Mas Marte, que da Deusa sustentava
Entre todos as partes em porfia,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
De antre os Deuses em pé se levantava:
Merencório no gesto parecia;
O forte escudo, ao colo pendurado,
Deitando pera trás, medonho e irado;
37
A viseira do elmo de diamante
Alevantando um pouco, mui seguro,
Por dar seu parecer se pôs diante
De Júpiter, armado, forte e duro;
E dando ũa pancada penetrante
Co conto do bastão no sólio puro,
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
Um pouco a luz perdeu, como enfiado;
38
E disse assi: – «Ó Padre, a cujo império
Tudo aquilo obedece que criaste:
Se esta gente que busca outro Hemisfério,
Cuja valia e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério,
Como há já tanto tempo que ordenaste,
Não ouças mais, pois és juiz direito,
Razões de quem parece que é suspeito.
39
«Que, se aqui a razão se não mostrasse
Vencida do temor demasiado,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
Pois que de Luso vêm, seu tão privado;
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque enfim vem de estâmago danado;
Que nunca tirará alheia enveja
O bem que outrem merece e o Céu deseja.
40
«E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinação que tens tomada
Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada.
Mercúrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve e à seta bem talhada,
Lhe vá mostrar a terra onde se informe
Da Índia, e onde a gente se reforme.»
41
Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabeça inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso
E néctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lácteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Pera os determinados apousentos.
42
Enquanto isto se passa na fermosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em pexes converteu.
43
Tão brandamente os ventos os levavam
Como quem o Céu tinha por amigo;
Sereno o ar e os tempos se mostravam,
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.
44
Vasco da Gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Pêra se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece.
Por diante passar determinava,
Mas não lhe sucedeu como cuidava.
45
Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça e, de alegria,
Não sabe mais que olhar a causa dela.
– «Que gente será esta? » (em si diziam)
«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»
46
As embarcações eram na maneira
Mui veloces, estreitas e compridas;
As velas com que vêm eram de esteira,
Dũas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira
Que Fáëton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado e não prudente
(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).
47
De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados;
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçados;
Das cintas pêra cima vêm despidos;
Por armas têm adagas e tarçados;
Com toucas na cabeça; e, navegando,
Anafis sonorosos vão tocando.
48
Cos panos e cos braços acenavam
Às gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas já as proas ligeiras se inclinavam,
Pera que junto às Ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam
Como se aqui os trabalhos s' acabassem:
Tomam velas, amaina-se a verga alta,
Da âncora o mar ferido em cima salta.
49
Não eram ancorados, quando a gente
Estranha polas cordas já subia.
No gesto ledos vêm, e humanamente
O Capitão sublime os recebia.
As mesas manda pôr em continente;
Do licor que Lieu prantado havia
Enchem vasos de vidro; e do que deitam
Os de Fáeton queimados nada enjeitam.
50
Comendo alegremente, perguntavam,
Pela Arábica língua, donde vinham,
Quem eram, de que terra, que buscavam,
Ou que partes do mar corrido tinham?
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas repostas que convinham:
– «Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.
51
«Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado;
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.
52
«E, por mandado seu, buscando andamos
A terra Oriental que o Indo rega;
Por ele o mar remoto navegamos,
Que só dos feios focas se navega.
Mas já razão parece que saibamos
(Se entre vós a verdade não se nega),
Quem sois, que terra é esta que habitais,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?»
53
– «Somos (um dos das Ilhas lhe tornou)
Estrangeiros na terra, Lei e nação;
Que os próprios são aqueles que criou
A Natura, sem Lei e sem Razão.
Nós temos a Lei certa que ensinou
O claro descendente de Abraão,
Que agora tem do mundo o senhorio;
A mãe Hebreia teve e o pai, Gentio.
54
«Esta Ilha pequena, que habitamos,
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos,
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena Ilha – Moçambique.
55
«E já que de tão longe navegais,
Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem sejais
Guiados pelas ondas sàbiamente.
Também será bem feito que tenhais
Da terra algum refresco, e que o Regente
Que esta terra governa, que vos veja
E do mais necessário vos proveja.»
56
Isto dizendo, o Mouro se tornou
A seus batéis com toda a companhia;
Do Capitão e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto Febo nas águas encerrou
Co carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à Irmã que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.
57
A noite se passou na lassa frota
Com estranha alegria e não cuidada,
Por acharem da terra tão remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer então consigo cuida e nota
Na gente e na maneira desusada,
E como os que na errada Seita creram,
Tanto por todo o mundo se estenderam.
58
Da Lũa os claros raios rutilavam
Polas argênteas ondas Neptuninas;
As Estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Polas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.
59
Mas, assi como a Aurora marchetada
Os fermosos cabelos espalhou
No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
Ao claro Hiperiónio, que acordou,
Começa a embandeirar-se toda a armada
E de toldos alegres se adornou,
Por receber com festas e alegria
O Regedor das Ilhas, que partia.
60
Partia, alegremente navegando,
A ver as naus ligeiras Lusitanas,
Com refresco da terra, em si cuidando
Que são aquelas gentes inumanas
Que, os apousentos Cáspios habitando,
A conquistar as terras Asianas
Vieram e, por ordem do Destino,
O Império tomaram a Costantino.
61
Recebe o Capitão alegremente
O Mouro e toda sua companhia;
Dá-lhe de ricas peças um presente,
Que só pera este efeito já trazia;
Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente,
Não usado licor, que dá alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe,
E muito mais contente come e bebe.
62
Está a gente marítima de Luso
Subida pela enxárcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo e uso
E a linguagem tão bárbara e enteada.
Também o Mouro astuto está confuso,
Olhando a cor, o trajo e a forte armada;
E, perguntando tudo, lhe dizia
Se porventura vinham de Turquia.
63
E mais lhe diz também que ver deseja
Os livros de sua Lei, preceito ou fé,
Pera ver se conforme à sua seja,
Ou se são dos de Cristo, como crê;
E por que tudo note e tudo veja,
Ao Capitão pedia que lhe dê
Mostra das fortes armas de que usavam
Quando cos inimigos pelejavam.
64
Responde o valeroso Capitão,
Por um que a língua escura bem sabia:
– «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
De mi, da Lei, das armas que trazia.
Nem sou da terra, nem da geração
Das gentes enojosas de Turquia,
Mas sou da forte Europa belicosa;
Busco as terras da Índia tão famosa.
65
«A Lei tenho d' Aquele a cujo império
Obedece o visíbil e invisíbil,
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente e todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra enfim deceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.
66
«Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as verás, porque eu me obrigo
Que nunca as queiras ver como inimigo.»
67
Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vêm arneses e peitos reluzentes,
Malhas finas e lâminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos e sagitíferas aljavas,
Partazanas agudas, chuças bravas.
68
As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêm fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser lião.
69
Porém disto que o Mouro aqui notou,
E de tudo o que viu com olho atento,
Um ódio certo na alma lhe ficou,
Ũa vontade má de pensamento;
Nas mostras e no gesto o não mostrou,
Mas, com risonho e ledo fingimento,
Tratá-los brandamente determina,
Até que mostrar possa o que imagina.
70
Pilotos lhe pedia o Capitão,
Por quem pudesse à Índia ser levado;
Diz-lhe que o largo prémio levarão
Do trabalho que nisso for tomado.
Promete-lhos o Mouro, com tenção
De peito venenoso e tão danado
Que a morte, se pudesse, neste dia,
Em lugar de pilotos lhe daria.
71
Tamanho o ódio foi e a má vontade
Que aos estrangeiros súpito tomou,
Sabendo ser sequaces da Verdade
Que o filho de David nos ensinou!
Ó segredos daquela Eternidade
A quem juízo algum não alcançou:
Que nunca falte um pérfido inimigo
Àqueles de quem foste tanto amigo!
72
Partiu-se nisto, enfim, co a companhia,
Das naus o falso Mouro despedido,
Com enganosa e grande cortesia,
Com gesto ledo a todos e fingido.
Cortaram os batéis a curta via
Das águas de Neptuno; e, recebido
Na terra do obseqüente ajuntamento,
Se foi o Mouro ao cógnito apousento.
73
Do claro Assento etéreo, o grão Tebano,
Que da paternal coxa foi nascido,
Olhando o ajuntamento Lusitano
Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
No pensamento cuida um falso engano,
Com que seja de todo destruído;
E, enquanto isto só na alma imaginava,
Consigo estas palavras praticava:
74
– «Está do Fado já determinado
Que tamanhas vitórias, tão famosas,
Hajam os Portugueses alcançado
Das Indianas gentes belicosas;
E eu só, filho do Padre sublimado,
Com tantas qualidades generosas,
Hei-de sofrer que o Fado favoreça
Outrem, por quem meu nome se escureça?
75
«Já quiseram os Deuses que tivesse
O filho de Filipo nesta parte
Tanto poder que tudo sometesse
Debaixo do seu jugo o fero Marte;
Mas há-se de sofrer que o Fado desse
A tão poucos tamanho esforço e arte,
Qu' eu, co grão Macedónio e Romano,
Dêmos lugar ao nome Lusitano?
76
«Não será assi, porque, antes que chegado
Seja este Capitão, astutamente
Lhe será tanto engano fabricado
Que nunca veja as partes do Oriente.
Eu decerei à Terra e o indignado
Peito revolverei da Maura gente;
Porque sempre por via irá direita
Quem do oportuno tempo se aproveita.»
77
Isto dizendo, irado e quási insano,
Sobre a terra Africana descendeu,
Onde, vestindo a forma e gesto humano,
Pera o Prasso sabido se moveu.
E, por milhor tecer o astuto engano,
No gesto natural se converteu
Dum Mouro, em Moçambique conhecido,
Velho, sábio, e co Xeque mui valido.
78
E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas,
A sua falsidade acomodadas,
Lhe diz como eram gentes roubadoras
Estas que ora de novo são chegadas;
Que das nações na costa moradoras,
Correndo a fama veio que roubadas
Foram por estes homens que passavam,
Que com pactos de paz sempre ancoravam.
79
– «E sabe mais (lhe diz), como entendido
Tenho destes Cristãos sanguinolentos,
Que quási todo o mar têm destruído
Com roubos, com incêndios violentos;
E trazem já de longe engano urdido
Contra nós; e que todos seus intentos
São pera nos matarem e roubarem,
E mulheres e filhos cativarem.
80
«E também sei que tem determinado
De vir por água a terra, muito cedo,
O Capitão, dos seus acompanhado,
Que da tenção danada nasce o medo.
Tu deves de ir também cos teus armado
Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
Porque, saindo a gente descuidada,
Caïrão facilmente na cilada.
81
«E se inda não ficarem deste jeito
Destruídos ou mortos totalmente,
Eu tenho imaginada no conceito
Outra manha e ardil que te contente:
Manda-lhe dar piloto que de jeito
Seja astuto no engano, e tão prudente
Que os leve aonde sejam destruídos,
Desbaratados, mortos ou perdidos.»
82
Tanto que estas palavras acabou
O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
Os braços pelo colo lhe lançou,
Agradecendo muito o tal conselho;
E logo nesse instante concertou
Pera a guerra o belígero aparelho,
Pera que ao Português se lhe tornasse
Em roxo sangue a água que buscasse.
83
E busca mais, pera o cuidado engano,
Mouro que por piloto à nau lhe mande,
Sagaz, astuto e sábio em todo o dano,
De quem fiar se possa um feito grande.
Diz-lhe que, acompanhando o Lusitano,
Por tais costas e mares co ele ande,
Que, se daqui escapar, que lá diante
Vá cair onde nunca se alevante.
84
Já o raio Apolíneo visitava
Os Montes Nabateios acendido,
Quando Gama cos seus determinava
De vir por água a terra apercebido.
A gente nos batéis se concertava
Como se fosse o engano já sabido;
Mas pôde suspeitar-se fàcilmente,
Que o coração pres[s]ago nunca mente.
85
E mais também mandado tinha a terra,
De antes, pelo piloto necessário,
E foi-lhe respondido em som de guerra,
Caso do que cuidava mui contrário.
Por isto, e porque sabe quanto erra
Quem se crê de seu pérfido adversário,
Apercebido vai como podia
Em três batéis sòmente que trazia.
86
Mas os Mouros, que andavam pela praia
Por lhe defender a água desejada,
Um de escudo embraçado e de azagaia,
Outro de arco encurvado e seta ervada,
Esperam que a guerreira gente saia,
Outros muitos já postos em cilada;
E, por que o caso leve se lhe faça,
Põem uns poucos diante por negaça.
87
Andam pela ribeira alva, arenosa,
Os belicosos Mouros acenando
Com a adarga e co a hástea perigosa,
Os fortes Portugueses incitando.
Não sofre muito a gente generosa
Andar-lhe os Cães os dentes amostrando;
Qualquer em terra salta, tão ligeiro,
Que nenhum dizer pode que é primeiro:
88
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a fermosa dama desejada,
O touro busca e, pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena e brada,
Mas o animal atroce, nesse instante,
Com a fronte cornígera inclinada,
Bramando, duro corre e os olhos cerra,
Derriba, fere e mata e põe por terra.
89
Eis nos batéis o fogo se levanta
Na furiosa e dura artelharia;
A plúmbea péla mata, o brado espanta;
Ferido, o ar retumba e assovia.
O coração dos Mouros se quebranta,
O temor grande o sangue lhe resfria.
Já foge o escondido, de medroso,
E morre o descoberto aventuroso.
90
Não se contenta a gente Portuguesa,
Mas, seguindo a vitória, estrui e mata;
A povoação sem muro e sem defesa
Esbombardeia, acende e desbarata.
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
Que bem cuidou comprá-la mais barata;
Já blasfema da guerra, e maldizia,
O velho inerte e a mãe que o filho cria.
91
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
Sem força, de covarde e de apressado,
A pedra, o pau e o canto arremessando;
Dá-lhe armas o furor desatinado.
Já a Ilha, e todo o mais, desamparando,
À terra firme foge amedrontado;
Passa e corta do mar o estreito braço
Que a Ilha em torno cerca em pouco espaço.
92
Uns vão nas almadias carregadas,
Um corta o mar a nado, diligente;
Quem se afoga nas ondas encurvadas,
Quem bebe o mar e o deita juntamente.
Arrombam as miúdas bombardadas
Os pangaios sutis da bruta gente.
Destarte o Português, enfim, castiga
A vil malícia, pérfida, inimiga.
93
Tornam vitoriosos pera a armada,
Co despojo da guerra e rica presa,
E vão a seu prazer fazer aguada,
Sem achar resistência nem defesa.
Ficava a Maura gente magoada,
No ódio antigo mais que nunca acesa;
E, vendo sem vingança tanto dano,
Sòmente estriba no segundo engano.
94
Pazes cometer manda, arrependido,
O Regedor daquela inica terra,
Sem ser dos Lusitanos entendido
Que em figura de paz lhe manda guerra;
Porque o piloto falso prometido,
Que toda a má tenção no peito encerra,
Pera os guiar à morte lhe mandava,
Como em sinal das pazes que tratava.
95
O Capitão, que já lhe então convinha
Tornar a seu caminho acostumado,
Que tempo concertado e ventos tinha
Pera ir buscar o Indo desejado,
Recebendo o piloto que lhe vinha,
Foi dele alegremente agasalhado,
E respondendo ao mensageiro, a tento,
As velas manda dar ao largo vento.
96
Destarte despedida, a forte armada
As ondas de Anfitrite dividia,
Das filhas de Nereu acompanhada,
Fiel, alegre e doce companhia.
O Capitão, que não cala em nada
Do enganoso ardil que o Mouro urdia,
Dele mui largamente se informava
Da Índia toda e costas que passava.
97
Mas o Mouro, instruído nos enganos
Que o malévolo Baco lhe ensinara,
De morte ou cativeiro novos danos,
Antes que à Índia chegue, lhe prepara.
Dando razão dos portos Indianos,
Também tudo o que pede lhe declara,
Que, havendo por verdade o que dizia,
De nada a forte gente se temia.
98
E diz-lhe mais, co falso pensamento
Com que Sínon os Frígios enganou,
Que perto está ũa Ilha, cujo assento
Povo antigo Cristão sempre habitou.
O Capitão, que a tudo estava atento,
Tanto co estas novas se alegrou
Que com dádivas grandes lhe rogava
Que o leve à terra onde esta gente estava.
99
O mesmo o falso Mouro determina
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a Ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
À Moçambique esta Ilha, que se chama
Quíloa, mui conhecida pola fama.
100
Pera lá se inclinava a leda frota;
Mas a Deusa em Citere celebrada,
Vendo como deixava a certa rota
Por ir buscar a morte não cuidada,
Não consente que em terra tão remota
Se perca a gente dela tanto amada,
E com ventos contrairos a desvia
Donde o piloto falso a leva e guia.
101
Mas o malvado Mouro, não podendo
Tal determinação levar avante,
Outra maldade inica cometendo,
Ainda em seu propósito constante,
Lhe diz que, pois as águas, discorrendo,
Os levaram por força por diante,
Que outra Ilha tem perto, cuja gente
Eram Cristãos com Mouros juntamente.
102
Também nestas palavras lhe mentia,
Como por regimento, enfim, levava;
Que aqui gente de Cristo não havia,
Mas a que a Mahamede celebrava.
O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
Virando as velas, a Ilha demandava;
Mas, não querendo a Deusa guardadora,
Não entra pela barra, e surge fora.
103
Estava a Ilha à terra tão chegada
Que um estreito pequeno a dividia;
Ũa cidade nela situada,
Que na fronte do mar aparecia,
De nobres edifícios fabricada,
Como por fora, ao longe, descobria,
Regida por um Rei de antiga idade:
Mombaça é o nome da Ilha e da cidade.
104
E sendo a ela o Capitão chegado,
Estranhamente ledo, porque espera
De poder ver o povo baptizado,
Como o falso piloto lhe dissera,
Eis vêm batéis da terra com recado
Do Rei, que já sabia a gente que era;
Que Baco muito de antes o avisara,
Na forma doutro Mouro, que tomara.
105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaxo o veneno vem coberto,
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos,
Ó caminho de vida nunca certo,
Que aonde a gente põe sua esperança
Tenha a vida tão pouca segurança!
106
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
NOTAS
1.1
"As
armas e os barões assinalados": desde o primeiro verso o Poeta revela
o seu grande inspirador, Virgílio: "arma virumque cano..." (hendíadis).
Camões rejeitou o emprego pouco expressivo da forma correspondente a vir
e adoptou 'barão' (já usado na Idade Média – barom e varom –
no sentido de vir). 'Barões' não foi escolhido apenas para designar
o indivíduo do sexo masculino, mas homem ilustre e esforçado (título
nobiliárquico, provavelmente do germ. Baro: 'homem livre, apto para
a luta', aparentado com o escand. ant. beriask: 'pelejar' segundo
Corominas, s. v. 'Barón'). Camões aplicou o termo mesmo a S. Tomé, 'barão
sagrado' (X.108.7). No poema a forma 'barão' alterna com 'varão', embora
esta seja usada com menos frequência (v. VI.37.4, IX.91.3 e X.7.2). ED
escreveu sempre 'barão' na sua ed. de Os Lusíadas. Gaspar Barreiros,
na sua Chorographia, fl. 197 v.º, escreve: "Nicolao Leoniceno,
doctissimo baram" e "Nunca fama de baram illustre,
por mais celebrado que fosse, teve tal fortuna (Hércules)".
1.2
"Que
da ocidental praia lusitana": isto é, de Portugal. O emprego
'ocidental' reforça a situação geográfica de 'praia lusitana'. Camões chama
aos Portugueses 'Lusitanos' (e, frequentemente, 'os de Luso'). A que época
remonta o uso deste etnónimo? TB, na obra Camões, a Obra Lírica e Épica,
p. 401, citando Herculano, Hist. de Portugal, t. I, 10, lembra o
discurso latino recitado pelo bispo D. Garcia de Meneses em 1481 diante de
Sisto IV (e do célebre humanista Pompónio Leto). Luís Anriques, poeta do Cancioneiro
Geral, no sua "Lamentação à morte del rei D. João" (II) (GG,
III, 65-68), emprega Lusitânia e lusitanos. Mas muito antes,
no chamada Crónica de Cinco Reis (de 1419), escreveu-se no cap. xv:
"... e quando o prior de S.ta Cruz a que chamavao D. Theotonio ... vio
que lhe tomaraõ aquelle lugar que lhe elrei D. A.º avia dado ouve em grande
pesar & se partio do m ro [mosteiro] e foisse as terras de Lusitania que
os mouros possuiaõ e andou tanto ateesque filhou arrõches." [Duarte
Galvão, que copiou este (e outros capítulos), substituiu 'Lusitânia' por
'Alentejo'.] Sobre a origem de 'Lusitânia' v. VIII.2.7-8.
Ort.: valeroso (por valoroso).
1.3
"Por
mares nunca de antes navegados": cf. I.27.3: 'Por vias nunca usadas';
II.45.8: 'Novos mundos ao mundo irão mostrando'; V.4.1-2: 'Assi fomos
abrindo aqueles mares / que geração algua não abriu'; V.37.3: 'cortando /
os mares nunca d’outrem navegados'; V.41.8: 'Nunca arados d’estranho ou
próprio lenho'; V.66.3: 'No largo mar fazendo novas vias'; VII.25.5-6:
'Abrindo, lhe responde, o mar profundo, / Por onde nunca veio gente
humana'; VII.30.7: 'Por mares nunca d'outro lenho arados'; VIII.4.6:
'Despois de ter tão largo mar arado'; IX.86.5-7. 'Para lhe descobrir da
unida Esfera / Da terra imensa e mar não navegado / Os segredos ...';
X.138.3: 'Abrindo a porta ao vasto mar patente'. A grandeza do feito está
evidenciada nesta ideia mestra, tão insistentemente repetida.
1.4-7
"Passaram
ainda além da Taprobana" (por Tapróbana): identificada
com a ilha de Ceilão (v. X.107.4 e X.51.1). Barros, na 3.ª Década,
liv. II, enuncia assim o seu cap. I: Em que se descreve o sitio &
cousas da ilha Ceilão a que os antigos chamão Taprobana; "E entre
gente remota edificaram": sobre a conservação da copulativa inicial no
v. 7 ('E entre gente'), e não no v. 5 ('Em perigos'), v. JMR, em BCL,
vol. XIII, pp. 724 a 728.
2.3-7
"...
e as terras viciosas": terras corrompidas (na fé). O sentido
esclarece-se pelos vv. de VII.17.6-7: "... alguns o vicioso /
Mahoma..."; "De África e de Ásia andaram devastando":
assolando, destruindo, arruinando; "Se vão da lei da morte
libertando": da lei do esquecimento; "... espalharei por toda
parte": Camões emprega indiferentemente 'por toda parte' e 'por
toda a parte'. Usa 'toda parte' em I.2.7, em IV.15.4, em IV.25.7, em
IV.84.8, em VIII.89.3 e em X.67.3; e 'toda a parte' em I.51.2, em II.37.7,
em III.51.6, em III.79.8, em IX.77.6 e em X.67.3. Em X.78.7 diz por duas
vezes: "Por toda a parte tem, e em toda a parte [Começa e acaba ...
]".
3.1
"Cessem
do sábio grego e do Troiano": o sábio grego é
Ulisses, cujo longo e aventuroso regresso a Ítaca faz o assunto da Odisseia.
Na Ilíada e na Odisseia, além de 'divino' e 'dilecto de
Zeus', Ulisses é, sobretudo, o 'prudentíssimo' e o 'ardiloso'. Para Camões
será, sobretudo (como em Ovídio, M, XIII.92), o 'facundo' (II.45.1,
V.86.3-4 e VIII.5.1-2), em virtude da actividade diplomática do rei de
Ítaca, de que dá conta a Ilíada. Em X.24, porém, Camões toma o
partido de Aiace (Ajax) e fala na 'língua vã' e 'fraudulenta' de Ulisses
(v. comentário a esta estância, vv. 3-4). O Troiano é Eneias, cujas
navegações foram cantadas por Virgílio na Eneida. Apesar de se
tratar de 'fábulas vãs, tão bem sonhadas' (V.89.6), Camões pergunta ao rei
de Melinde: "Crês tu que tanto Eneias e o facundo Ulisses pelo mundo
se estendessem?" (V.86.3-4), tornando reais estas fabulosas viagens.
3.3
"Cale-se
de Alexandro e de Trajano": Alexandre Magno, rei
da Macedónia (356-323 a. C.), falecido em Babilónia. Grande figura de cabo
de guerra, de político e de chefe civilizador. Derrotou Dario e chegou ao
oceano Índico. Já antes de 1470 o cronista Zurara estabelecia o confronto
das conquistas e navegações portuguesas com as de Alexandre e as de César:
"Por certo eu dovido", diz o autor, "se despois do grande
poderyo de Alexandre e de César foe algum principe no mundo que tan longe
de sua terra mandasse poer os malhões de sua conquista!" (cap. 63.º);
"e nom sey se Alexandre, que foe hum dos monarcas do mundo, bebeo em
seus dyas augua que de tam longe lhe fosse trazida" (cap. 65.º). Neste
poema, em VIII.12.1, Alexandre é associado a César.
Trajano (Marcus Ulpius Trajanus Crinitus), imperador romano
(52-117). Comandou as legiões da Baixa Germânia, combateu os Dácios (no
Baixo Danúbio), criou uma província de Arábia e empreendeu uma expedição
contra os Partas, povo cita. Perseguiu os Cristãos.
Luís Anriques, a propósito da morte de D. João II, escreveu no CG:
Em sua
bondade trespassa Trajano,
& outro Alexandre ~e grande fraqueza [falta o ~ no e]
(Ed. GG, III, p. 68)
Ort.: Camões
emprega a forma 'Alexandro' em I.3.3, V.93.2, V.95.2, V.96.7 e X.156.7 e
'Alexandre' em VIII.12.1 e X.48.1.
3.5-7
"...
o peito ilustre Lusitano": a palavra peito é empregada
pelo Poeta noventa e sete vezes (v. IAVL, s. v.) e em sete sentidos
diferentes. (Dicionário dos Lusíadas, por Afrânio Peixoto &
Pedro A. Pinto, 1924). Neste lugar está por valor, coragem: o valor,
a coragem dos Portugueses; "A quem Neptuno e Marte
obedeceram": Neptuno (Posídon, na mitologia grega),
filho de Cronos (Saturno) e de Réia (ou Cíbele),
deus do elemento húmido e, mais restritamente, do mar. Irmão de Zeus;
Marte, deus romano (identificado com o deus Ares helénico,
que tem como principal atributo a guerra). Era filho de Zeus e de Hera.
V. I.36.1; "Cesse tudo o que a Musa antiga canta": Cesse,
com o sentido do v. 1: cessem. MC e FS em seus comentários evocam estes
dois versos de Propércio (lib. 2, eleg. 33) como possível fonte do Poeta:
"Cedite Romani Scriptores, cedite Grai! / Nescio quid maius nascitur Iliade",
que MC traduz desta forma: «Estem (=estejam) de parte os escriptores
Latinos & Gregos, que agora novamẽte sae a luz, hum não sei quê,
maior que a Iliada de Homero"; Musa antiga, a poesia dos
Gregos e Romanos.
Ort.: Antigua (gu=g).
4.1
"E
vós, Tágides minhas ...": Tágides são as 'ninfas' ou
'filhas' do Tejo, a quem o Poeta solicitará a 'fúria', isto é, a inspiração
poética e às quais associará em VII.78.3 as 'filhas do Mondego'. Não deve
estranhar-se esta associação, visto que D. Dinis
... de
Helicona (Hélicon) as Musas fez passar-se
A pisar do Mondego a fértil erva
(III.917.3-4)
No entanto,
a partir de III.1.1 o Poeta invoca também Calíope, (no início da
grande narrativa ao rei de Melinde) e será a 'minha Calíope' (X.8.5), mais
ainda a 'gram Rainha / das Musas' (X.9.7-8), como poderia ter dito Hesíodo
ou Virgílio. Esta será associada às 'filhas do Tejo' (V.99.6-7) e sem
esquecer o suserano das nove Musas clássicas, Febo ou Apolo. Em VII.87.5
pede a Apolo e às Musas que o acompanharam (a ele, Poeta) que lhe dobrem a
'fúria' concedida.
A criação da palavra 'Tágides' foi vindimada por André de Resende numa
anotação (liv. II, v. 195, nota 48, p. 79) ao seu poema Vincentius
(1545). O carme sobre a morte de D. Beatriz de Sabóia, em que o Poeta pela
primeira vez teria usado aquele vocábulo, ou se perdeu ou é desconhecido. (CMV,
O Instituto, vol. 52.º, 1905, pp. 241-250.)
4.5-7
"Dai-me agora um som alto e sublimado": dai-me ... uma voz
que atinja o sublime; "Um estilo grandíloco e corrente":
um estilo elevado, mas fluente; "Por que de vossas águas Febo
ordene": para que Febo (epíteto de Apolo) ordene a
respeito de vossas águas (sintaxe latina, mas vigorosa em nossos
clássicos).
Ort.: grandíloco, única grafia utilizada pelo Poeta.
4.8
"Que
não tenham enveja às de Hipocrene": Hipocrene é
etimològicamente a Fonte Cabalina ou a Fonte do Cavalo. Camões
chamou-lhe Fonte Cabalina na égloga IV e águas cabalinas no
soneto 153. Hipocrene é uma das nascentes (a mais celebrada pelos
poetas) que brotam na "grande e divina montanha", o Hélicon
(Hesíodo) (v. "Prelúdio" da Teogonia), nos confins da
Fócida e da Beócia, entre o lago Cópais e o golfo de Corinto. O cavalo 'Pégaso'
feriu a rocha com o casco e assim brotou a fonte. Outra nascente do Hélicon
é Aganipe, citada por Camões (III.2.4). A escolha das 'musas
heliconianas' por Hesíodo justifica-se porque este, nascido em Ascra, vivia
perto do Hélicon e do vale das Musas. Camões refere ainda
outras moradas de Apolo e das Musas: o Pindo (cadeia
de montanhas que separa o Epiro da Tessália) (III.2.5) e o Parnaso,
monte da Fócida, perto de Delfos, sede de um importante santuário
consagrado a Apolo, onde brotava a água da fonte Castália
(I.32.4).
Ort.: enveja (por inveja).
5.1
"Dai-me
ua [falta o ~ no u de ua] fúria grande e sonorosa":
dai-me um entusiasmo criador; sonoroso (de sonoro+oso),
ressonante, fragorosa (mais usada por Camões do que sonoro). Os
comentadores, desde MC, comparam a fúria ao furor latino e
citam vários exemplos, como este, de Cícero: "Poetam bonum neminem ...
existere posse sine quodam afflatu quasi furoris", De Or.
2.194. No entanto, a palavra foi estranhada, no tempo de Camões. Entre os
epigramas de Pero de Andrade Caminha encontra-se este:
Dizes que
o bom Poeta á de ter furia;
Se nom á de ter mais, és bom Poeta.
Mas se o Poeta á de ter mais que fúria,
Tu nom tens mais que furia de Poeta.
|
(CXLV)
(Poezias ..., Lisboa, MDCCXCI
|
5.2
"E
não de agreste avena ou frauta ruda" (a mesma ideia
expressa por palavras diferentes: avena e frauta). Estilo
humilde e simples (o das églogas). Esta ideia já foi expressa em o
"verso humilde" do v. 3 da estância anterior. A palavra avena foi
provàvelmente tirada de Virgílio; cf. o suposto início da Eneida: "Ille
ego qui quondam gracili modulatus avena / carmen ..."; Frauta ruda,
flauta rústica.
Ort.: Camões só conheceu a forma frauta.
5.3-5
"Mas
de tuba canora e belicosa": tuba, trombeta; canora (de
canora < canor) harmoniosa, melodiosa; belicosa (de
bellicosus < bellicus) guerreira; "Que o peito acende e
a cor ao gesto muda": peito, como em I.3.5: valor,
coragem; gesto, muito frequente em Camões no sentido geral de
fisionomia, feições e, às vezes, modo; "Dai-me igual canto aos
feitos da famosa": igual canto, "à altura de" (1.
par).
5.6-7
"Gente
vossa, que a Marte tanto ajuda": esta é a sintaxe da edição princeps.
No entanto, o primeiro comentador, MC, alterou o sentido do verso só
com alterar o lugar da preposição a: "... a que Marte tanto
ajuda", mas não comentou nem lhe fez qualquer referência. FS voltou à
forma da edição princeps. Os modernos comentadores têm mantido a
forma da edição princeps, com excepção de MR, que seguiu MC. Não nos
parece que ED tenha razão quando diz que ajudar na edição princeps
tem o sentido de 'glorificar'. Pode entender-se que a gente portuguesa,
belicosa, favorece Marte com as suas empresas; "Que se espalhe
e se cante no universo": sujeito, a fama da gente vossa.
6.1-2
"E
vós, ó bem nascida segurança / Da Lusitana antiga liberdade": começa a
dedicatória a D. Sebastião, nascido em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554,
pouco depois de Camões ter chegado à Índia. Toda a dedicatória foi redigida
na menoridade do rei, como se verifica em I.7: Vós, tenro e novo ramo
florescente; em I.9: Que nesse tenro gesto vos contemplo; em
I.16: Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro.
6.6-7
"Maravilha
fatal ...": prodígio fixado pelo destino (fatum);
"Dada ao mundo por Deus, que todo o mande": a oração 'que
todo o mande' não tem explicação segura, apesar dos esforços dos
intérpretes. Se lermos dada (a maravilha fatal) ao mundo por Deus
/ Pera do mundo a Deus dar parte grande não há dificuldade
nenhuma. Parece-nos, pois, 'que todo o mande' depende de Deus, e não
de maravilha, como um anseio de que Deus (o Deus católico, a
Igreja) mande todo (o mundo).
7.1
"Vós,
tenro e novo ramo florecente": tenro – juvenil.
Ort.: florecente (por florescente). Camões nunca escreveu de
outra maneira.
7.4
"Cesárea
ou Cristianíssima chamada": árvore (ou família) cesárea,
a que fundou o Segundo Império do Ocidente (Carlos Magno), tornado Santo
Império Romano-Germânico, de que foi fundador Oto I, o Grande (m. em
973), e durou até 1806 (com Francisco II, imperador germânico, depois
Francisco I, imperador da Áustria); cristianíssima: Le roi Très Chrétien
ou Sa Majesté Très Chrétienne, título usado pelos reis de França
em alguns actos pontifícios do século XIV e atribuído a estes príncipes
exclusivamente a partir de meados do século XV.
7.5-8
"Vede-o
no vosso escudo ...": v. título do capítulo XV da Crónica de
D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão: "Como Nosso Senhor apareceu
aquela noite [véspera da batalha] ao príncipe D. Afonso Henriques posto na
cruz como padeceu por nós". Sobre este assunto v. III.53-54.
8.5-8
"Vós,
que esperamos jugo e vitupério": v. ED, SHP (ed. de
1933, p. 45): "Alguns verbos podem construir-se com um nome
predicativo do complemento directo, em vez de terem ligada a si uma oração
substantiva de ser ou estar": "Vós, que
esperamos (que sejais) jugo e vitupério"; "Do torpe Ismaelita
...": dos Árabes, descendentes de Ismael; "Que ainda bebe o licor
do santo rio": aqui licor (do 1. liquor, oris) significa
água – a água do rio Ganges, grande rio da Índia, que desce do Himalaia
e desagua no golfo de Bengala. É um rio sagrado, onde se banham os
peregrinos.
Ort.: dece (por desce).
9.3-8
"Que
já se mostra qual na inteira idade": inteira idade (1. integra
aetate) significa na força da vida; "Em versos divulgado numerosos":
ritmados, cadenciados.
10.6
"...
senhor superno": superior, colocado no alto (latinismo).
11.7-8
"Que
excedem Rodamonte e o vão Rugeiro / E Orlando, ainda
que fora verdadeiro": personagens do Orlando Furioso, de
Ariosto.
12.1-7
"Por
estes ...": "um Nuno fero", D. Nuno Álvares Pereira;
"um Egas, Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques; "um
Dom Fuas", D. Fuas Roupinho, figura meio lendária do nosso século
XII. Desbaratou os Mouros na terra e no mar, até que foi deles vencido nas
águas de Ceuta. Venceu os Mouros em Porto de Mós, de que tinha o castelo D.
Fuas, aos 22 de Maio de 1180; derrotou os Mouros numa batalha naval no cabo
Espichel em 15 de Julho do ano citado. A derrota de D. Fuas em Ceuta,
depois de ter aí alcançado alguns êxitos, foi em 17 de Outubro do mesmo ano
(mas Frei A. Brandão diz 1182). A fonte destas notícias é a Crónica de
D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão. Camões volta a falar de D.
Fuas em VIII.16-17; "Doze Pares" segundo a Chanson de
Roland, os Doze Pares foram: Roland, Olivier, Samson,
Anséis, Gérin, Gérier, Bérenger, Othon, Girard de Roussillon, Ivon, Ivoire,
Engelier; "os doze de Inglaterra e o seu Magriço": doze,
incluindo o Magriço; "o ilustre Gama" – o descobridor da
Índia.
13.1-7
"Pois
se a troco de Carlos, Rei de França": Carlos, Carlos
Magno, imperador do Ocidente (800-814); "César", Júlio
César (101-44), conquistador das Gálias (59-51), assassinado no meio do
Senado, aos idos de Março. Recorda-se a sua frase para um dos mais activos
dos conjurados, seu filho adoptivo, Bruto: "Tu quoque, fili!";
"aquele que a seu Reino a segurança / Deixou ...": D.
João I, vencedor de Aljubarrota; "Outro Joane ...": D.
João II.
14.4-7
"Vossa
bandeira sempre vencedora": (e fizeram) vencedora vossa bandeira;
"vencedora", nome predicativo de "bandeira"; "um
Pacheco fortíssimo", Duarte Pacheco Pereira (v. X.12-25); "os
Almeidas", D. Francisco de Almeida e seu filho D. Lourenço
de Almeida (v. X.26-38); "Albuquerque terríbil", Afonso
de Albuquerque (v. X.40-49); "Castro forte", D. João de
Castro (v. X.67-72). Terríbil é latinismo.
16.1-2
"Em
vós os olhos tem o Mouro frio": frio (de medo) por ver
afigurado em D. Sebastião seu exício, isto é, a sua ruína
(latinismo).
16.5-8
"Tétis
todo o cerúleo senhorio": Tétis, filha do Céu e
da Terra, esposa do Oceano, reserva em dote a D. Sebastião
"todo o cerúleo (=da cor do céu) senhorio" porque
"deseja comprá-lo para genro". Imitação do verso de Virgílio:
"teque sibi generum Tethys emat omnibus undis» (porventura Tétis, pelo
preço das suas ondas, pagará a honra de te ter por genro) (G, I.31).
MC foi o primeiro a indicar a fonte virgiliana.
17.1-2
"Olímpica
morada ...": olímpica, de Olimpo, montanha entre a
Macedónia e a Tessália, residência dos deuses; "Dos dous avós
...": D. João III, pai do príncipe D. João, e Carlos V, pai da
princesa D. Joana.
18.5-6
"...
o salso argento": argento, latinismo que significa prata;
"Os vossos Argonautas ...": o Poeta evoca os
conquistadores do Velo de Oiro, na Cólquida, a bordo do navio
Argo. Apolónio Ródio e Valério Flacco escreveram poemas sobre este
assunto: Argonáutica.
19.1-8
"Já
no largo Oceano navegavam": princípio da narração; "Que do gado
de Próteu são cortadas": Proteu é, na
Odisseia, um deus do mar, que tem o especial encargo de fazer pastar os
rebanhos de focas e outros animais marinhos pertencentes a Posídon (v.
VI.20.5-6). Proteu possuía o dom profético (v. VI.36.1-4). Tinha o poder de
se metamorfosear em todas as formas que desejasse (v. VII.85.4).
Acent.: o acento em Próteu é exigência métrica.
20.7-8
"Convocados,
da parte de Tonante": Tonante, epíteto dado a Júpiter
como deus das trovoadas; "Pelo neto gentil do velho Atlante":
neto do velho Atlante, ou Atlas, era Mercúrio, filho
de Júpiter e de Maia, a mais nova das Plêiades. Estas
eram filhas de Atlas, o Gigante, e de Plêione; esta, por seu
turno, filha do Oceano e de Tétis. Mercúrio era um mensageiro
de Júpiter.
21.1-8
"Deixam
dos sete Céus o regimento": os sete Céus são as sete
esferas planetárias do sistema de Ptolemeu; "Os que habitam o Arcturo
congelado": o Arcturo é a estrela mais brilhante da
constelação do Boieiro ou Bootes. Foi considerada por vezes
como fazendo parte da Ursa Maior e Arcturo significa literalmente guarda
da ursa; "E os que o Austro têm ...": os que moram no
Sul; "... e as partes onde / A Aurora nasce e o claro Sol se
esconde": vieram, portanto, os deuses do Norte, do Sul, do Leste e do
Oeste ao concílio.
22.1-2
"Estava
o Padre ...": Júpiter; "Que vibra os feros raios de Vulcano":
Vulcano, filho de Júpiter e de Juno, era o deus do fogo e
fabricava os raios para seu pai.
Ort.: dino (por digno).
23.2
Ort.:
perlas (por pérolas).
24.2
"Estelífero
Pólo e claro Assento": Pólo, céu (1. polus);
claro Assento: brilhante morada; "De Luso ...":
Júpiter afirma a descendência dos Portugueses. Estelífero, estrelado
(latinismo).
24.6
"Como
é dos Fados grandes ...": grandes em poder.
25.8
"Teve
os troféus pendentes da vitória": teve pendentes os troféus da
vitória; troféu era propriamente o tronco de árvore do qual se
dependuravam as armas dos vencidos.
26.2-4
"Que
co a gente de Rómulo alcançaram": gente de Rómulo, os Romanos;
o sujeito de alcançaram é a forte gente de Luso (os Lusitanos);
"Quando com Viriato, ...": Viriato (v. VIII.5.6-7 e
VIII.6.2-6), pastor lusitano, que acaudilhou os guerrilheiros lusitanos,
infligindo grandes perdas aos Romanos. Quinto Servílio Cipião, em vez de
aliança e amizade, preferiu comprar três amigos de Viriato, que o
assassinaram à traição (139).
26.6-8
"...
quando alevantaram / Um por seu capitão, que, peregrino, / Fingiu na
cerva espírito divino": Sertório, tendo recebido como
presente uma corça branca, que ele dizia ter sido um presente de Diana, afirmava
que ela lhe revelava todas as coisas ocultas (ver em Plutarco, Sertorius,
11). Peregrino (latinismo), estrangeiro.
27.1-4
"Agora...
a mais s'atreve": por a mais se atrevem;
Áfrico, vento de sudoeste; Noto, vento do sul; "Que havendo
tanto já que as partes vendo / Onde o dia é comprido e onde breve";
o Poeta indica as navegações de norte a sul pelo Oeste de África.
27.7-8
"Inclinam
seu propósito ...": o Poeta volta à concordância lógica: sujeito os
Lusitanos; "A ver os berços onde nasce o dia": a ver o
Oriente.
Ort.: perfia (por porfia).
28.1-4
"Prometido
lhe está . . .": lhe por lhes era corrente;
"Do mar que vê do Sol a roxa entrada": perífrase
para designar os mares orientais. No tempo de Camões preferia-se dizer roxo
a vermelho: "roxa entrada", em I.28.4 e I.59.3;
"a roxa fronte", II-13.8; o "Mar Roxo",
II.49.1; "roxa Aurora", IV.60.7, etc.
29.1-3
"...
têm passados ... [têm] experimentados": note-se a
concordância do particípio passivo em género e número com o complemento
directo.
30.3-5
"Na
sentença um do outro diferia": diferia não
concorda com Deuses (v. 2), mas com o aposto um; "O padre
Baco ali não consentia": aparece pela primeira vez o grande
inimigo dos Portugueses a dar as razões do seu desacordo. Baco (Dionysos)
é filho de Júpiter (Zeus) e Sémele. Descobriu a
vide e o seu uso. Conquistou a Índia no decorrer de uma expedição
semiguerreira, semidivina.
31.4-8
"Da
Índia tudo quanto Dóris banha": Dóris, filha do Oceano
e esposa de Nereu. É a mãe das Nereidas; "De
que Nisa celebra inda a memória": para furtar Baco aos
ciúmes de Hera, Júpiter transportou Baco para longe da
Grécia, para um país chamado Nisa, que uns situam na Ásia, outros na
Etiópia ou na África, e deu-o a criar às Ninfas desse país. V. comentário a
VII.52.5.
32.1-7
"Vê
que já teve o Indo sojugado": Indo (ou Sindh), grande rio da
Índia e do Paquistão, que se lança ao mar de Omã, formando um vasto delta;
"De quantos bebem a água de Parnaso": o Parnaso, monte da
Grécia, na Fócida, consagrado a Apolo e às Musas. Aí nasce e
corre a fonte Castália; "D'água do esquecimento
...": água do Lete, um dos rios dos Infernos, que significa em
grego esquecimento.
Ort.: sojugado (por subjugado).
33.1-6
"Sustentava
contra ele Vénus bela": aparece agora a protectora dos
Portugueses, afeiçoada à gente lusitana pelas razões que se invocam nesta
estância e se repetem na est. IX.38. Vénus foi assimilada à Afrodite
dos Gregos no segundo século a. C. Afrodite é a deusa do amor e
da beleza. Vénus foi mãe de Cupido e de Eneias e
esposa de Vulcano. Tem n'Os Lusíadas um papel intercessor
fundamental; "Nos fortes corações, na grande estrela":
na coragem e na fortuna; "Que mostraram na terra Tingitana":
Mauritânia Tingitana ou Marrocos. É a parte da Mauritânia onde se situa
Tinge ou Tingi (Tânger).
34.1-3
"Estas
causas moviam Citereia": Citereia é uma das
designações de Vénus por ter um santuário em Citera, ilha do mar
Egeu. O Poeta só volta a invocar Citereia em IX-53; "E mais,
porque das Parcas claro entende": As Parcas são as
divindades do Destino, equiparadas às Moïrai dos Gregos: Cloto, Láquesis
e Átropos; a clara Deia": a distinta Deusa.
Ort.: perfia (por porfia). Porfia em 36.2.
35.1
Qual
Austro fero ou Bóreas na espessura": tal como o vento do
sul ou do norte.
36.1
"Mas
Marte ...": deus da guerra, também conhecido por Mavorte. Sobre
os amores de Vénus e de Marte veja-se Lucrécio, De rerum
natura, I.33-40. Recorde-se que Vénus era esposa de
Vulcano e atente-se nestes versos de Ovídio: "Solis referemus
amores / Primus adulterium Veneris cum Marte putatur / Hic vidisse deus;
videt hic deus omnia prima." (M, IV.170-172.); e em V, G, IV.
vv. 345-346: "Inter quas curam Clymene narrabat inanem Vulcani,
Martisque dolos et dulcia furta."
37.7
"O
Céu tremeu, e Apolo, de torvado": Apolo, filho de Zeus
e de Leto. Esta, perseguida por Hera, foi ter a
uma ilha chamada Ortígia, flutuante e estéril. Aí nasceu Apolo. Este,
em reconhecimento, fixou a ilha no centro do mundo grego e deu-lhe o nome
de Delos, 'a brilhante'. Entre os seus múltiplos atributos conta-se o de
ser o deus da luz e de conduzir o carro do Sol.
38.3-5
"Se
esta gente ... / Não queres que padeçam ...":
concordância do colectivo do singular com o verbo no plural.
39.3-4
"Bem
fora que aqui Baco os sustentasse, / Pois que de Luso vêm,
seu tão privado": neste lugar Luso foi privado de Baco;
em III.21.5-7 diz o Poeta: "Esta foi Lusitânia, derivada / De Luso
ou Lisa, que de Baco antigo / Filhos foram, ... ou companheiros"; em
VIII.2.7-8 diz de "... Luso, donde a Fama / O nosso Reino «Lusitânia»
chama [Filho e companheiro do Tebano]". E insiste em VIII.4.4:
"... companheiro e filho amado". Portanto: 1.º, privado; 2.º,
filho ou companheiro; 3.º, filho e companheiro.
Ort.: estâmago (por estômago, índole).
41.4-7
E
néctar sobre todos esparziu": o néctar era a bebida e o perfume dos
deuses; "Pelo caminho lácteo glorioso": a Via Láctea;
"Fazendo seus reais acatamentos": fazendo suas
profundas reverências.
Ort.: valeroso (por valoroso); apousentos (por aposentos).
42.1-6
"Enquanto
isto se passa ... ": o Poeta retoma a narração; "Ilha de São
Lourenço ...": Madagáscar.
42.7-8
"[e
o Sol ardente] Queimava então os Deuses que Tifeu / Co temor
grande em pexes converteu": Tifeu, gigante, filho de Titã e
da Terra, inimigo de Júpiter, chefe daqueles que pretenderam
escalar o Céu. Os deuses quando viram este monstro escalar o Céu fugiram
para o Egipto e metamorfosearam-se. Vénus mudou-se em peixe, como
diz Ovídio, M, V.331: "Pisce Venus latuit". Diz
LPS, em AL: "O Sol entrava no signo dos Peixes a 10 de
Fevereiro e levava a percorrê-lo até 11 de Março, em que passava para o de
Áries. A gente belicosa cortava o mar desde 24 de Fevereiro e ia chegar à
ilha de Moçambique, que avistaram em 1 de Março. Esteve durante este
trajecto sempre o Sol no signo dos Peixes".
Ort.: pexes (por peixes).
43.5
"O
promontório Prasso já passavam": "O principio da qual
começando na orietal [falta o ~ no e de orietal]parte
della he o Prasso promontorio, q[~] elle Ptholomeu sitou em quinze graos
contra o Sul & em tantos estâ per nós verificado: ao qual os naturaes
da terra chamam Moçambique, onde ora temos hũa fortaleza que serve de
escala das nossas naos nesta navegação da India" (Barros, I.VIII.IV).
45.7
"A
gente se alvoroça ... /... / (em si diziam)": sujeito
colectivo a concordar com o verbo no plural.
46.6-8
"Que
Fáëton, nas terras acendidas": a lenda de Fáeton é
admiràvelmente contada por Ovídio, em M, II.1-366; "(O Pado o
sabe e Lampetusa o sente)": o corpo de Fáeton foi
precipitado no Erídano, identificado com o rio Pó (Pado). Foi sepultado por
suas irmãs, as Helíades, uma das quais se chamava Lampécia. Na
Odisseia (XII.132) aparece uma outra filha do Sol, ao lado de Lampécia:
Faetusa. Em V.91.6 aparece o nome de Lampécia. Lampetusa parece
ser a junção de Lampécia e Faetusa: Lampe+tusa.
Ort.: veloces (por velozes).
47.1-8
"De
panos de algodão vinham vestidos": Castanheda, I.V: "A gente q [falta
o ~ no q] vinha dentro erã homẽs baços & de bõs
corpos, vestidos de panos dalgodão listrados & de muytas cores, hus
cingidos até o giolho, & outros sobraçados como capas: & nas
cabeças fotas cõ vivos de seda lavrados de fio douro, & trazião
terçados mouriscos & adagas"; "anafis sonorosos":
anafil (pl. anafis ou anafiles), trombeta dos
Mouros.
48.5-8
"A
gente e marinheiros trabalhavam": trabalhavam todos; "Da âncora o
mar ferido em cima salta"; bela imagem do Poeta para pôr em
relevo o efeito da âncora a cair no mar e a "espirrar" a água
para cima.
49.6-8
"Do
licor que Lieu prantado havia": Lyaeus, um dos nomes de Baco,
o deus que liberta dos cuidados; "Os de Fáeton queimados
nada enjeitam"; os queimados por Fáeton, os negros.
Ort.: prantado (por plantado).
50.7
"
– Os Portugueses somos do Ocidente": aposição explicativa de Portugueses.
51.2-8
"Toda
a parte do Antártico e Calisto": Antártico é o
Pólo; Calisto a Ursa Maior. Calisto, filha de Licáon, rei
da Arcádia. Amada de Zeus, foi mudada em ursa por Hera e
morta na caça por Ártemis. Zeus colocou-a no céu, onde se
tornou a constelação da Ursa Maior. O sentido do verso é, pois, o de
que os Portugueses têm navegado toda a parte setentrional e meridional do
Oceano; "Mas no lago entraremos de Aqueronte": os Portugueses são
tão fiéis e obedientes a seu Rei que, a seu mandado, serão capazes de
entrar no Aqueronte, que é um rio dos Infernos.
52.4
"Que
só dos feios focas se navega": feios focas (m.) se
navega, por é navegado.
53.6-8
"O
claro descendente de Abraão": o célebre Mafoma ou Mafamede; "A
mãe Hebreia teve e o pai, Gentio": Camões conhecia o passo de Barros,
II.X.VI: "Nasceo em Itrarip lugar pequeno de Arábia, seu pae (segundo
dizem os Mouros) era de hũa linhagem, a que elles chamão Corax, &
vem de Ismael, & avia nome Abedelá Gẽtio, sua mãe Enima, a qual
era Hebrea, ambos pessoas do povo ..."
54.1-4
"...
certa escala": escala certa; "De Quíloa, de Mombaça e de
Sofala": Vasco da Gama, na sua segunda viagem à Índia, sujeitou o rei
de Quíloa à obediência do rei de Portugal (1502); Mombaça foi assaltada por
D. Francisco de Almeida em 1505; neste ano Pero da Nhaia, de origem
castelhana, conseguiu do xeque o início de uma improvisada fortificação em
Sofala (v. X.94.8).
55.2
"Buscando
o Indo Idaspe ...": O Hidaspe, grande rio da Índia, afluente do Indo,
actualmente o Jelam ou Djelem. Aí tiveram termo as conquistas de Alexandre
Magno no Oriente.
56.5-7
"Nisto
Febo nas águas encerrou”: em grego, literalmente “o brilhante”. Epíteto
e nome de Apolo; "Dando cargo à Irmã ...": Diana. Os
Antigos interpretaram Ártemis (identificada a Diana) como uma
personificação da Lua, que vagueia pelas montanhas.
58.2-3
"Pelas
argênteas ondas Neptuninas": pelas ondas do mar (de Neptuno);
"As Estrelas os Céus acompanhavam": as estrelas fixas
acompanhavam o firmamento; os planetas são levados nos céus respectivos. V.
LPS, AL, p. 35.
59.4
"Ao
claro Hiperiónio, que acordou": Hiperíon ou Hiperiónio,
um dos Titãs, filho de Úrano e de Gaia. Casado com
sua irmã, a titânida Teia, gerou o Sol, a Lua e a Aurora. Toma-se
por vezes, como neste verso, pelo próprio Sol.
Ort.: fermosos (por formosos).
60.4-5
"Que
são aquelas gentes inumanas": isto é, gentes bárbaras; "Que,
os apousentos Cáspios habitando": os Turcos começaram por habitar as
regiões banhadas pelo mar Cáspio, depois vieram descendo e apossaram-se da
maior parte do Império Romano do Oriente e acabaram, com Maomet II, por
tomar a própria capital, Constantinopla, em 29 de Maio de 1453. No terrível
assalto final morreu o imperador Constantino, Paleólogo.
Ort.: apousentos (por aposentos).
61.6
"Não
usado licor, ...": dos Maometanos. Castanheda, I.VI: "& apos
isto lhe mandou dar muy bẽ de comer dessas conservas q[~]levava:
& do vinho: & ele [o Regedorl comeo & bebeo de boa võtade:
& assi os q[~] hião coele ..."
62.8
"Se
porventura vinham da Turquia": Castanheda, I.VI: "Ho çoltão
preguntou a Vasco da Gama se vinha de Turquia, porq[~] ouvira dizer q[~]
erão brãcos assi como os nossos, & dizialhe que lhe mostrasse os arcos
de sua terra, & os livros de sua ley. Ele lhe disse que não era de
Turquia se não du grande reyno q[~] confinava coela; & que os seus
arcos & armas lhe mostraria & os livros da sua ley não os trazia,
porq[~] no mar não tinhão necessidade deles ..."
Ort.: na edição princeps, nesta est. exárcia. Em VI.84.4 enxárcia.
64.2-4
"Por
hum que a língua escura bem sabia": Castanheda, loc. cit.: "E
isto lhe dezia pelo lingoa Fernão martinz». O Poeta fala dele em V.77.2. Língua
escura é a língua arábica; "De mi, da Lei, das armas que trazia":
trazia, por trago. O mesmo em 66.2-6.
Ort.: valeroso (por valoroso).
65.1
"Aquele
que criou todo o Hemisfério": "O Poeta em geral designa por
Hemisfério a meia esfera que se apoia sobre o horizonte". LPS, AL,
p. 153.
65.2,4,6,7
"Visíbil",
"invisíbil", "insensíbil" e "insofríbil" são
latinismos.
Ort.: deceu (por desceu).
66.2-6
"Os
livros que tu pedes não trazia": por não trago; "Em
papel o que na alma andar devia": por andar deve;
"Cumprido esse desejo te seria"; por te será.
67.2
"Ministros
...": servidores (latinismo). Outros exemplos do mesmo sentido em
II.96.3, III.125.4 e IX.29.5.
67.3-8
"Vêm
arneses e peitos reluzentes": arnês, armadura completa,
mas em especial do tronco; malhas finas, armaduras de malha; escudos
de pinturas diferentes, arma defensiva, geralmente circular, com
as empresas e divisas que cada um adoptava; pelouros, balas, em
geral de metal, empregadas em bombardas e peças de artilharia; espingardas
de aço puras (caso de trajectio epithetorum): não
espingardas puras, mas de aço puro; arcos, bestas; sagitíferas
aljavas, coldres ou carcases portadores de setas. Sagitífero é
latinismo; partazanas (fr. pertuisane), arma de hástea, com
ferro de gládio, cortante, mais largo na base e terminando em ponta; chuços,
pau armado de aguilhão ou choupa.
68.2-4
"As
panelas sulfúreas ...": arma muito danosa, por ser preparada com
pólvora e enxofre candentes; "... aos de Vulcano ...": os bombardeiros
ou artilheiros, que manejavam as bombardas e peças de artilharia.
69.3-5
"Um
ódio certo . . .": um ódio firme; "Nas mostras e no gesto o não
mostrou": no tratamento, não no rosto.
71.4-6
"Que
o filho de David nos ensinou": "... Jesus Cristo, filho de
David, filho de Abraão" ("Ev. de S. Mateus", I.I.1); "A
quem juízo algum não alcançou": negativa reforçada.
Ort.: sequaces (por sequazes).
72.6-8
"Das
águas de Neptuno...": v. I.3.5-7; "... recebido /
Na terra do obseqüente ajuntamento": recebido em terra pela
serviçal multidão de mouros. Obseqüente é latinismo; "Se
foi o Mouro ao cógnito apousento": ao conhecido aposento.
73.1-2
"Do
claro Assento ..., o grão Tebano": outro nome de Baco,
por sua mãe, Sémele, ser de Tebas; "Que da paternal coxa
foi nascido": Baco, "Ignigenamque satumque iterum solumque
bimatrem», como diz Ovídio, M, IV.12, porque sua mãe, Sémele, quis
que Zeus se lhe mostrasse em toda a sua potência; mas, não podendo
suportar a vista dos raios que o cercavam, caiu fulminada. Zeus apressou-se
a arrancar o filho que ela trazia no seio, apenas com seis meses, e coseu-o
imediatamente na sua coxa. Quando chegou o termo, saiu de lá perfeitamente
formado e vivo. É por isso o "duas vezes gerado", "o único
que teve duas mães".
Ort.: avorrecido (por aborrecido).
74.6
"...
qualidades generosas": no sentido latino de generosus:
de boa raça, nobre.
75.2-7
"O
filho de Filipo nesta parte": Alexandre Magno, "o grão
Macedónio" (I.75.7), que submeteu uma parte da Índia (356-323 a. C.);
"Romano" é Trajano (v. I.3.3).
Ort.: sometesse (por submetesse).
76.4
"Que
nunca veja as partes do Oriente": que nunca verá ...
Ort.: decerei (por descerei).
77.4-8
"Pera
o Prasso sabido se moveu": para o conhecido promontório Prasso
(v. I.43.5); "... e co Xeque mui valido": Xeque é o
governador, chefe de tribo arábica.
78.4
"...
de novo": ùltimamente.
80.1-8
"E
também sei que tem determinado": v. Castanheda, I.VII; "Porque,
saindo a gente ... / Caïrão ...": concordância com o sujeito
colectivo no singular.
81.3-5
"Eu
tenho imaginada no conceito": concordância com o compl.
directo; "Outra manha e ardil ...": pleonasmo; "Manda-lhe
dar piloto, que de jeito": jeito rima com jeito do
primeiro verso da mesma estância.
82.1-7
"Tanto
que estas palavras ...": o sujeito é Baco; "... nos tais
casos sábio e velho": sábio e experimentado; "Pera que ao
Português se lhe tomasse": lhe é pleonasmo. Belígero
é latinismo.
83.7
"Que,
se daqui escapar, que lá adiante": repetição anacolútica do
segundo que.
84-1-3
"Já
o raio Apolíneo ...": o singular pelo plural; "Os Montes
Nabateios acendido [o raio]": habitados pelos Nabateus,
descendentes de Nabath, primogénito de Ismael, tribo do Noroeste da Arábia,
entre o mar Vermelho e o Eufrates. Aqui os Montes são tomados pelas
partes do Oriente; "Quando Gama ...": caso de fonética
sintáctica.
85.2
"De
antes, pelo piloto necessário": por antes.
86.3-5
"Um
... / Outro ...": uns ... outros; "... de azagaia": azagaia,
lança curta; "... seta ervada": seta envenenada com sucos
de ervas; "Outros muitos já postos em cilada": estando outros
muitos postos em cilada.
87.3-5
"Com
a adarga e co a hástea perigosa": adarga, escudo oval,
de coiro (adarga nada tem que ver com adaga); a gente generosa":
como em I.74.6.
88.1
"Qual
no corro sanguino ...": esta estância pertence para a anterior (87), e
não para a seguinte (89). É necessário que a pontuação o torne evidente. Cornígera:
latinismo.
Ort.: atroce (lat.) (por atroz).
89.3-7
"A
plúmbea péla mata, o brado espanta": plúmbea péla, bala
de chumbo; brado, estrondo; "Já foge o escondido ...": os
Mouros escondidos em cilada.
Ort.: assovia (por assobia).
91.3
"A
pedra, o pau e o canto arremessando": canto como
sinónimo de pedra talhada era usual no tempo. Camões usa-o também na
Lírica.
91.4-8
"Dá-lhe
armas o furor desatinado": em Virgílio, E, I.150: "jamque
faces et saxa volant, furor arma ministrat"; "... e todo o
mais,": ... e tudo o mais; "Passa e corta do mar o
estreito braço / Que a Ilha em torno cerca em pouco espaço": em
pouco espaço pertence para Passa e corta.
Camões condensa e transforma nestas estâncias a narrativa de Castanheda
(I.VII) e de Barros (I.IV.IV).
92.1-6
"Uns
vão nas almadias carregadas": embarcação ligeira, de duas proas,
feita, de um tronco de árvore escavado. Movida a remo e por vezes com uma
vela em duas hastes, dispostas em forma de V; "Um corta o mar
...": uns ...; "Quem se afoga ...": uns ...; "Quem bebe
o mar ...": outros ...; "Os pangaios sutis ...": pequena
embarcação de tábuas unidas por cordas. Sutis, pequenos e leves.
94.2
"O
Regedor daquela inica terra".
Ort.: inica (por iníqua).
95.1-8
"...
que já lhe ...": a quem já; "... a tento": acauteladamente;
"As velas manda dar ao largo vento": a edição princeps tem
"Aas velas manda dar ..." Não é impossível esta construção no
tempo.
96.2-3
"As
ondas de Anfitrite dividia": Anfitrite era a rainha do
mar. Pertence ao grupo das Nereidas. Casou com Neptuno (Posídon);
"Das filhas de Nereu acompanhada": as Nereidas.
97.5
"Dando
razão dos portos ...": dando notícia ...
98.2
"Com
que Sínon os Frígios enganou": Sínon, o célebre
grego de que fala Virgílio, que conseguiu introduzir o cavalo de pau dentro
dos muros de Tróia (E, 57-267). Os Frígios eram os Troianos,
pois que Tróia era na Frígia.
99.1-6
"O
mesmo o falso Mouro determina / Que o seguro Cristão lhe manda e
pede": o mesmo (que o confiado Capitão lhe manda e pede) o falso Mouro
determina; "Porque em poder e forças ...": é pleonasmo; "Aa
Moçambique, esta ilha ...": na edição princeps.
Ort.: malina (por maligna).
100.2
"Mas
a Deusa em Citere celebrada": Vénus ou Citereia. Esta
salva a armada dos perigos naturais da entrada de Quíloa (cf. Castanheda,
I.VIII).
Ort.: contrairos (por contrários).
101.7-7
"...
cuja gente / Eram Cristãos ...": concordância do colectivo singular
com o verbo no plural.
Ort.: inica (por iníqua).
102.7-8
"Mas,
não querendo a deusa guardadora, / Não entra pela barra, e surge
fora": Vénus defendeu os Portugueses em Quíloa e volta a
defendê-los em Mombaça (v. Castanheda, I.IX).
105.2
Ort.:
debaxo (por debaixo).
106.2-8
"...
a morte apercebida": aparelhada; "Contra um bicho da terra tão
pequeno?": Camões repete o verso que usou na canção junto de
um seco, fero e estéril monte ...
Ort.: avorrecida (por aborrecida).
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